quarta-feira, 7 de setembro de 2011

VISAGENS

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O nome da dona da casa era Sinhá Josefa. Uma senhora de estatura baixa, entroncada, acostumada aos serviços pesados, pois ajudava o marido na lida da roça. A sua tez era morena, enrugada pelo sol. Ela pigarreou, sorriu para as visitas e ofereceu o chimarrão para elas. O marido dela todos chamavam de sinhô Tonho Tolete. Um homem baixo e troncudo. Fazia um casal interessante. Ornavam um para o outro. Dizem que o homem escolhe a sua esposa mais parecida com a sua mãe, do jeito que era a sua mãe, não é? Bem, continuando, as visitas estavam ali desde que tiraram o leite das vacas e deram o trato para elas, as vacas. E elas, as visitas, ajudaram bastante. Jantaram e foram para a varanda que era da largura da casa, grande e espaçosa. Estavam sentados alguns em cadeiras, no banco e o casal, cada um na sua cadeira de balanço. Estavam lembrando de causos que é um costume comum por aquelas paragens. O seu Neno lembrou do seu Laurindo que, de novo, tinha visto a mulher que andava por cima da água quando foi pescar naquele sábado. É que de vez em quando ele via a tal mulher, meio transparente, com um vestido branco esvoaçante indo com a correnteza. Quando ele contava se arrepiava todo e quem mostrava, agora, os bracinhos todos arrepiados eram os pequenos que estavam ali na varanda e sorriam uns para os outros. O sinhô Tonho Tolete fez lembrar, e todos riram, daquela vez que a dona Zica, aquela mulher que cuidava da vida dos outros, todos os dias via uma luizinha que descia lá de onde era a casa do seu Capistrano. Ela vinha descendo, descendo, dava uma voltinha e desaparecia onde tinha um riacho. Todos os dias era a mesma coisa até ela descobrir que era o filho mais velho dele, do seu Capistrano, que ia trabalhar todos os dias na Usina de Açúcar. Ele trabalhava no turno da noite. Ele descia pela trilha do morro para cortar caminho e que era todo em curva por causa do próprio morro que era uma descida forte, passava por um quebra-corpo, por isso a voltinha e ia até a beirada do rio que tinha um matagal. Quando ela descobriu, a dona Zica, ficou sem ir pra janela por uns dias. Meio com vergonha. Todos os que estavam ali riram e a dona Bete, mulher do seu Neno, falou que era o costume feio dela de ficar espiando a vida dos outros e contando para meio mundo. Aí, ela esticou a conversa para a família dos Lima que moravam no Entroncamento, perto de Telêmaco Borba, no Paraná. Contava sobre o que a dona da casa e a filha mais velha viram no sótão da casa deles. A primeira quem viu a visagem foi a menina dela que tinha uns quatorze anos, mais ou menos, naquela época. Hoje ela deve beirar uns trinta e cinco e a mãe dela deve ter uns cinquenta e três ou cinquenta e quatro. A primeira vez que ela viu foi num dia que ela tinha ido lá no sótão arrumar a bagunça dos irmãos dela, dos meninos. Arrumar o quarto deles. Os irmãos homens, todos, dormiam no sótão e imaginem a bagunça! Outra coisa, não era só arrumar, não. Era recolher as roupas sujas para lavar lá no tanque. No “muque”. Na mão. Só água e sabão. Serviço que levaria daquela hora até perto do meio-dia. Então, ela estava ali separando as roupas limpas das sujas e recolhendo num balaio para levar lá para trás, quando viu uma luz se formar num canto do sótão. Ela se arrepiou, foi ela que contou. Ela disse que se arrepiou todinha. Dos pés a cabeça. Ela disse que ficou sem se mexer. Mas, quando começou a aparecer o corpo de uma pessoa. Ela sabia que era de uma moça e não sabia porque, mas era de uma moça. Então, ela se despencou para baixo. Desceu correndo, gritando e a mãe dela veio da cozinha e se encontraram no pé da escada. A mãe dela disse que ela estava com os olhos muito abertos, arregalados e não conseguia falar. Pediu para ela sentar e quando ia buscar água ela não queria ficar sozinha. Claro, né. Imagine o medo. A mãe disse que ela estava gelada e toda arrepiada. Não conseguia falar e nem chorar direito. Quando começou a falar a mãe achou, foi o que ela disse, que achava que era uma brincadeira dos meninos. Gritou lá de baixo para que eles parassem e que descessem, senão ela iria subir e que iria subir com o “rabo de tatu”. O rabo de tatu muito comum naquela época. Uns usavam a vara outros esse “rabo de tatu”. Era com essas coisas que usavam para dar um castigo nas crianças e também nas que não eram tão crianças. Mas foi assim, a menina começou a falar que tinha visto uma luz forte. Não eram os irmãos dela. Era uma coisa que estava se formando lá em cima. Aí, a mãe esqueceu o rabo de tatu, se sentou na cadeira ao lado da menina e ficou séria. Claro, era uma coisa muito séria. Não era a primeira vez que tinha ouvido falar nestas coisas. Foi aí que ela começou a lembrar das coisas que já haviam acontecido com outras pessoas. É importante ouvir as histórias das outras pessoas. Assim, a gente aprende. A gente aprende com as experiências das outras pessoas, não é mesmo? Então. Ela passou a mão numas velas. Pegou uma e deu uma para a menina. Menina. Menina, não. Uma quase mocinha, né? As duas subiram a escada, não antes de ver se o isqueiro estava no bolso do avental e a mãe pegou na mão da filha e apertou. Sabe, para dar força e coragem. Para dizer sem falar que estão juntas, para o que der e vier, entende? Subiram assim. A escada para o sótão era estreita. Só cabia uma pessoa de cada vez. A mãe subiu na frente. Por isso ela puxava a filha. Lá em cima não se ouvia nada. Era de um lance só. Não era comprida. Tinha, o quê, uns dois metros e meio, se muito. Ela esperava para ver aquela coisa que a filha havia dito. Uma luz forte com uma pessoa no meio. Mas, nada. Quando colocou a cabeça para fora não tinha nada. Tudo quieto. O balaio estava ali tombado. As roupas dos meninos no chão. As camas desarrumadas. Os varais das roupas com algumas peças. Sabe, em alguns lugares eles usam varais, sabe varais? Usam para colocar as roupas para guardar. Não tem guardarroupas. Bem, vamos continuar. Como não havia nada elas, as duas, começaram a arrumar esperando que aparecesse de novo aquela visagem. Quando tinham terminado e quase que esquecido do tinha acontecido, daquilo que tinha ocorrido e estavam quase saindo pela escada apareceu novamente a luzinha atrás delas. A mãe quase caiu pela escada abaixo. A filha gritou e acudiu segurando pela manga da blusa da mãe. Viraram-se e viram. Viram alguma coisa se formando ali na frente delas. A mulher contou que o coração começou a bater forte que quase saiu pela boca. Os cabelos se arrepiaram todos. Os da nuca ,então... pareciam que estavam furando o lenço que ela usava na cabeça. A filha se agarrava na mãe, escondia a cabeça e os olhos que fechava se abraçado e se protegendo na mãe. Mãe é mãe, não é? De vez em quando dava uma espiadinha e voltava a se agarrar forte. Na frente delas uma imagem se formou e apareceu uma mocinha. Ela estava com as mãos juntas sobre o peito. Ela apertava as mãos. A mulher, mãe da moça, contou que as roupas daquela que apareceu ali na frente usava umas roupas bem antigas. Ela tinha um olhar triste e não falava nada. Só olhava para elas e esfregava as mãos. Então, a dona da casa se lembrou das histórias que os outros contavam. Vejam só como é bom conhecer as experiências dos outros. As histórias dos outros. Ela olhou para a mocinha bem nos olhos e disse que acenderia uma vela para ela e a filha acenderia outra, mas que ela fosse embora e em paz. Que não viesse mais ali porque eles ficavam com medo. A moça sorriu e sumiu com um aceno de cabeça. Baixou os olhos e se foi. As crianças que ouviam sentadas nos bancos e nas cadeiras mostravam os braços e esfregavam nas pernas os pelos arrepiados, sorrindo. Quando digo as crianças, é só modo de dizer. Não sei quem era filho de quem. Ali estavam desde pequenos até mocinhos e mocinhas. Mas, já estava tarde e com esta história foram se levantando. Ainda a sinhá Josefa lembrou o sinhô Tonho Tolete de que aquela história parecia com a da dona Maria do seu Carlão. Num parecia? Aquela visagem que pediu vela e eles ficaram acendendo por um tempão. As visitas foram descendo a escada da varanda, falando sobre o céu estrelado, se despedindo e convidando cada um para a próxima visita, acenderam as velas das lanternas e os cachorros sairam de debaixo da casa latindo. O sinhô Tonho tocou eles e as visitas desceram pela escuridão e aí, só se via umas luzes pelo caminho até desaparecer lá longe. Na casa, ali, continuaram acenando com as mãos e desejando uma boa noite. Quando desapareceram lá longe, o casal tocou os filhos para a cama e fecharam a porta da rua. Apareceu, ainda, alguém fechando as janelas e as luzes se apagaram. Apenas dava para ver a parte da casa que a luz das estrelas iluminavam.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A bruxa de sombrinha de bolinhas



O seu Manoel conseguiu um emprego em Apucarana, lá no estado do Paraná. Foi primeiro só ele e depois de conseguir um lugar para levar a família, levou.
Era uma casa dividida ao meio. Eles chamam de parede e meia. Tinha dois quartos, uma cozinha grande que servia de sala também e um banheiro que ficava na varanda, num plano mais baixo.
Pois bem. O seu Manoel conseguiu um emprego de guarda de segurança numa grande empresa. Fez curso e tudo. Fez defesa pessoal, curso de tiro e outras coisas que precisa ter na profissão. Ele estava feliz. Mas vai que um dia, na outra metade da casa entra um casal. Este casal tinha um bebê. Este bebê chorava direto. Mas, direto mesmo! Uma coisa assim que era de enjoar. E chora e chora. Passava os dias e nada do bebê parar. E olha só. O seu Manoel trabalhava em turno que é trabalhar, às vezes de dia e às vezes a noite. Quando era trabalhar a noite é que ficava difícil. O homem queria dormir e não conseguia. Então, teve um dia que ele pediu, meio que mandando, porque ele já estava passado de sono e quem perde o sono fica sem paciência, fica nervoso, pediu assim para a dona Nicota - era assim que se chamava a mulher dele. “Nicota, minha mulher! Você tem que ir ali do outro lado falar com a mãe desse bebê que não para de chorar. Eu quero dormir e não consigo, mulher e eu tenho que trabalhar a noite. Assim não dá! Eu tenho que dormir!” E lá foi a dona Nicota. Meio sem graça, chegou dizendo boa tarde, como é que está e coisa e tal. Aí, perguntou da criança. A dona da casa, a tal vizinha disse que ele estava bem. Foi aí que a dona Nicota falou que escutava ele chorar e foi por isso que ela foi até ali. Assim, começaram a conversar. A dona Nicota contou que o marido trabalhava de noite, as vezes, e que quando queria dormir não conseguia por causa do chororô da criança. Perguntou se ela já tinha levado no Posto de Saúde e a mulher disse que já tinha feito de tudo e o bebê continuava a chorar e a emagrecer. O choro dele também estava ficando mais fraquinho. Ali, a dona Nicota que já era bem vivida e sabia das coisas, se preocupou e sugeriu que a mulher, quando fosse de noite, que ela ficasse acordada e prestasse atenção no que acontecia. Porém a mulher vizinha disse que não conseguia ficar acordada. Não sabia o que acontecia e começava a ficar mole, o olho pesava e acabava dormindo. Só acordava de manhã e lembrava que a noite havia passado. O marido que também trabalhava fora e só vinha no fim de semana, nem ajudava. Se ele estivesse ali, pelo menos... Quando a vizinha falou que não conseguia dormir a noite, a dona Nicota teve um estalo. Alguma coisa estava errada. A coisa de não saber o que acontecia durante a noite é que martelava a cabeça dela. Então entraram num acordo. A dona Nicota iria dormir de noite na casa dela. Ela iria ajudar.
A noite chegou. A dona Nicota deixou os filhos – ela e o seu Manoel tinham dois filhos já grandinhos – depois de comer e de botá-los para dormir, foi para a casa do lado e foram para a cama. Combinaram que ficariam acordadas, claro. Era essa a intenção de dona Nicota ter ido até ali. Nenhuma das duas poderia dormir. Seria difícil? Elas não sabiam. Mas ficou acertado que uma chamaria a outra se a outra dormisse. Elas estavam assustadas. Não sabiam o que iria acontecer. As primeiras horas foi fácil. Falavam baixinho e até riam da situação. Elas estavam nervosas e o nervosismo deixa a gente rir à toa. O bebê depois de comer havia dormido. Então estava até engraçado. O tique-taque do relógio dava para ouvir facinho, facinho. Até parecia ser mais alto e dava mais medo. Qualquer coisa aquela hora deixava elas com medo, mais assustadas. Em alguns momentos elas se olhavam e ficavam arrepiadas e mostravam os braços uma para a outra com os pelos eriçados, os pelos levantados. O pio da coruja, do cricrilar do grilo, um gato gritando o seu miado de namoro lá longe, era para arrepiar.
Foi num momento que os sons iam ficando mais longe. O cansaço foi batendo e aí, parecia que tudo tinha ficado em silêncio. Devia ser por volta da meia-noite. Sabe, todas estas coisas acontecem por volta da meia-noite. Para mim já passava da meia-noite. Enfim, a cabeça de cada uma delas tinha, parecia, ficado mais leve, relaxada. Os olhos tinham ficado pesados. O corpo experimentava aquela cama gostosa e ia dando um sono difícil de resistir... Mas elas não podiam. Tinham que ficar acordadas. A dona Nicota bateu de leve chamando a vizinha para ficar acordada. Ela já estava quase ressonando e deu um estremecimento. Alguma coisa estava acontecendo. Não estava normal. Dava pra sentir. Veio uns arrepios quando perceberam uma luz vindo do lado da porta. Se encolheram embaixo das cobertas. Haviam combinado que só ficariam acordadas para ver o que acontecia. Não iam fazer mais nada do que isso. Sei lá o que poderia acontecer... A luz que vinha era esverdeada. Com aquela luz verde conseguiam até enxergar o olho uma da outra por debaixo das cobertas. Elas até se falavam pelos olhos. Pelo olho dava para ver o pavor que sentiam. Foi então que lembraram porque estavam ali acordadas. Era para ver o que acontecia com a criança. O que é que deixava a criança chorando e emagrecendo daquele jeito. O bebê estava ali do lado. Sozinho ali. Tomaram coragem, falavam pelos olhos, e procuraram ver o que acontecia. Mas tinha que ser com bastante cuidado para não chamar a atenção. Para não serem notadas. Então, aí, viram uma coisa que nunca tinham visto. Era uma mulher. Não se via o rosto, mas era uma mulher. Ela voava, ela flutuava acima do chão do quarto. Vinha devagarinho voando. Tinha uma roupa dessas bem antigas e uma sombrinha de bolinhas. Tinha, também, uma espécie de capa que ficava pendida por cima dos ombros e foi com essa capa que, quando chegou perto do berço, ali do lado, que ajeitou por cima deste berço tapando ele e ouviram ela aspirando o ar. Cada vez que ela aspirava assim, chupando o ar, saia uma nuvenzinha de um branco bem leve e entrava pela boca dela. Ela aspirava bem devagar. Aspirava devagar. E ficou ali por um bom tempo e as duas mulheres vendo e não podiam fazer nada. Parece que tinham virado estátuas. Estavam duras. Elas não podiam se mexer. Num momento, do mesmo jeito que entrou a mulher saiu. Só não sabem se foi de costas ou de frente. Elas não sabiam dizer. Quando perceberam de novo já era de manhã. A cabeça estava leve e o bebê chorava ali do lado. Aí as duas começaram a se lembrar do que tinha acontecido naquela noite e começaram a contar as coisas que se lembravam. Contavam uma para a outra e se arrepiavam de novo, assim como se arrepiaram naquela hora que aconteceu. Os pelos ficavam de pé de novo. Coisa incrível. A dona Nicota teve uma ideia. Perguntou se a criança era batizada e a moça envergonhada disse que não tinha sido. Eles não eram casados de papel passado. Lá no cartório, sabe. Vocês sabem que o batismo é importante nestes casos e resolveram que iam batizar naquele dia mesmo. Só esperaram o seu Manoel chegar do trabalho e batizaram ali na casa mesmo. Aí, foi que nem tirar com a mão. A bruxa nunca mais apareceu. O menino começou a tomar corpo, engordar. Coisa que não fazia a tempos e cresceu. O seu Manoel depois de uns tempos teve que mudar, porque a empresa dele mandou ele para outra cidade e perderam contato com aquela família. Mas, eu acredito que ele, a criança e a família devem estar bem. A família do seu Manoel e da dona Nicota também estão bem. Os filhos cresceram e se casaram. Tiveram filhos também. Para não ter que enfrentar a bruxa eles tinham o costume de primeiro batizar em casa. Vá lá que ela aparece. Melhor é não facilitar.
Olá.
Pensei em fazer este blog primeiro porque gosto de escrever contos. Em segundo porque escrevi alguns contos que gostaria de apresentar a quem gosta de ler. Claro. A função do escritor é escrever e a função do que foi escrito é ser lido. Estes contos e outros que pretendo escrever e postar aqui, são baseados em causos que ouvi quando criança, ao lado de fogão a lenha, ao lado da família. Foi num tempo que não havia televisão pelos lados de onde morava. Vim a conhecer esta em 1968 em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Aí, tornou-se mais raros aqueles momentos afetivos em que se parava para se ouvir histórias e conversar sobre acontecimentos do cotidiano. Bons tempos aqueles.