sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Enterrado



Não sei se você sabe o que é um enterrado. Sabendo ou não sabendo, vou explicar. Há muito tempo atrás, as pessoas não tinham essa facilidade de chegar em um banco e depositar seu dinheiro ou alguma coisa de valor. Então, eles recorriam a outros meios para guardar as suas coisas valiosas. O que mais faziam era enterrando. Daí a palavra enterrado. Bem, depois da explicação, vamos a história que aconteceu, de verdade, com o meu tio Zeca.
O tio Zeca era irmão de minha mãe. Irmão caçula do primeiro casamento de meu vô. A vó tinha morrido e o vô – que nós chamávamos de Dindinho – havia ficado viúvo por muitos anos e só mais tarde casou novamente. Mas, essa é outra história.
Já adulto, o tio trabalhou na Estrada de Ferro ali em Ibirama. Casou e comprou uma casa. Esta casa em estilo alemão, não enxaimel, mas com alguns traços deste estilo. Não entendo muito de estilos e não vem ao caso. O que é importante é saber que foi construída no início do século passado, quando a BR 470 começou a ser construída, e é interessante lembrar que foi o meu pai que desenhou aquela ponte em curva na entrada da cidade e também foi ali o último trabalho como funcionário público fazendo o trevo que passa por debaixo da mesma ponte. Mas, continuando, a casa ficava bem onde hoje é a cabeceira sul da ponte da cidade nesta BR 470. Como ficava muito próxima da rodovia, o tio Zeca fez uma outra mais para cima e resolveu desmontar, desmanchar aquela antiga. Entretanto, é importante que se diga que ali acontecia umas coisas esquisitas. Os meus primos não gostavam de ficar sozinhos na casa, porque de noite ouvia-se – todos ouviam – passos pela casa, passo pela escada que ia para o sótão e uma voz que sempre chamava o tio Zeca, assim: “José! José!” a noite. Meus primos sempre contavam. Como sou mais novo, naquelas rodas de conversa, sempre lembravam o acontecido e todo mundo se arrepiava. Quando nós íamos dormir na casa deles, dormíamos embaixo, num quartinho, da escada. Todo mundo junto.  Por falar em escada, no pé dela, dessa escada, havia um alçapão que o tio Zeca fechou por medo que as crianças entrassem por ali. Tornando a falar de quando nós dormíamos lá, só o meu irmão Paulo e o primo Adalto é que não dormiam embaixo da escada, naquele quartinho. Eles dormiam no sótão para provar que não tinham medo das "assombrações". E justamente estes dois é que, naquela conversa de adolescentes, tiveram a ideia de procurar aquele enterrado. O meu irmão foi e ajudou a desmanchar a casa. Procuravam nas paredes – é que em alguns causos ouviam-se falar de “enterrados” nas paredes como em alguns encontrados em umas casas lá na Lapa, no Paraná. Pois, bem. Foram desmanchando, desmanchando e chegaram e foi deixado só no assoalho. Os tijolos, grandes, ficaram empilhados mais acima, as tábuas, grossas, colocadas uma ao lado da outra num girau feito para isso e os caibros, grossos, empilhados ao lado. Quando começaram a desmanchar, descobriram que não haviam pregos. Para que as paredes ficassem em pé eram usados tarugos de madeira no lugar dos pregos e encaixes. Interessante, não é? Aí, faltava só desmanchar o assoalho e as paredes que ainda estavam em volta do assoalho. Para se entrar no porão, que tinha mais ou menos um metro nos fundos da casa e um metro e meio na frente, tinha uma portinha. Ali embaixo era jogado de tudo. Desde garrafas, panelas velhas, cacos de vidros, tudo. Era um guarda-porcarias. Naquele dia, estava quase na hora do almoço e aparece um vizinho que morava no outro lado da BR, no lado de baixo. A casa dele ficava próxima do rio Itajaí-Açú. O meu tio, um homem simpático, recebeu ele com um grande bom dia. O homem se desculpou por não ajudar a desmanchar a casa, etc. Chegou ali, conversou um pouco, andou para lá e para cá. Então, o meu tio falou que todos ali estavam com fome e até convidou o homem para o almoço. Ele se desculpou, dizendo que o almoço dele estava a mesa e saiu. Meus primos e o meu tio saíram para cima, para a casa e o homem para baixo. Almoço ali era uma festa. Todos conversavam, pois não tinha televisão para atrapalhar a conversa. Aí, cada um falava. Uns riam e outros escutavam e as horas passavam. Quando o meu irmão e o meu primo desceram para a casa antiga para continuarem o serviço, começaram a retirar as tábuas que formavam o assoalho. Quando chegaram na parte onde ficava a escada viram que ali havia umas tábuas do mesmo tamanho e quando soltas, e era assim mesmo, era o dito alçapão por onde se ia ao porão. Despregaram e levantaram o alçapão. A surpresa! Lá embaixo havia uma pá. Uma pá? O que estaria fazendo uma pá ali? E era até nova! Ora, a pá é do tio. É da casa. Foi tudo muito rápido. Junto com a pá viram que havia um buraco no formato de uma caçarola. No formato de uma panelinha de ferro. Dava mais ou menos um palmo de diâmetro. Uma panelinha pequena e estava escondida ali. Ali estava a razão – para quem acredita – dos barulhos da casa. Era um enterrado bem debaixo da escada. Meu irmão e meu primo foram correndo chamar o tio Zeca e os outros e quando chegaram para ver, foi aquele rebuliço. Então, havia mesmo um enterrado! E olha que estava fácil de encontrar. Ninguém nunca desceu pelo alçapão. O tio até ficou entristecido por nunca ter deixado ninguém descer por ali. Até tinha pregado por precaução. Também, ele tinha, naquela época, seis crianças.
Pois é. Ainda hoje o meu tio, quando se fala sobre o acontecido, sente uma tristeza e uma pontada no coração de não saber o que havia dentro daquela panelinha. Agora, quem foi que pegou aquele enterrado​? Há desconfiança. Qualquer um que tenha lido até aqui, e é o relato de quem esteve lá, vai pensar que foi aquele que esteve visitando a casa no dia do desmanche. É o óbvio, não? Aí é que está. Depois de duas semanas, começou a chegar na casinha deles, do dono da casinha outro lado da estrada – hoje asfalto – geladeira, rádio, bicicleta... que coisa, não? E isso não é tudo. Existe uma crença sobre os enterrados que, os enterrados são direcionados. Eles são para uma pessoa. Só ela pode pegar e quem não obedecer tem uma praga. Sofre. E não foi diferente para aquela família ali na frente. Dentro dos dois anos seguintes a família se desfez. Aconteceu as maiores desgraças com eles. Houve separação, doenças... Que coisa triste! Mas pensando bem, quem pegou, se foi aquela mesma pessoa, teve o seu preço. Ora, ele entrou na casa de outro, abusou da amizade e enganou. Desrespeitou o dono da casa. Se havia alguma coisa embaixo da casa e ele pegou, foi um furto mesmo que o dono da casa não tivesse conhecimento. Não é certo? Não tenho razão? Então, agora, até hoje o meu tio fica a pensar no que havia naquele enterrado. Seria ouro? Moedas? Joias? Não sei. Ele não sabe e ninguém saberá. Aquele que furtou deve estar enterrado e enterrado consigo o que havia lá.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DOS RATOS E DOS PREÁS



Atrás de casa tem uma família de preás que mora num capoeirão. Existe, também, um córrego que mais parece um valo e que nos separa. É verdade! Um valo, assim, destes que, aqueles que possuem a mente tacanha, jogam lixo. Eu falei do valo, digo, do córrego porque para que eles, os preás pudessem ir e vir da casa deles para minha e vice-versa, coloquei uma tábua que servisse de ponte – que seria uma ponte precária – e que servia bem para isso. Quando eles quisessem conversar comigo, eles atravessavam e cá vinham bater um “parangolé”. Bem, voltando a história deles, dia desses, o Atanásio, um preá, veio afoito e contou-me que estava tendo problemas com a vizinhança. Os ratos. Não desses ratos pequenos, mas, ratões. Como vocês sabem, tanto preás como os ratos são da mesma família dos roedores. Se bem que, a diferença é tamanha. Ratos são ratos e preás são preás. Como homens são homens e chimpanzés são chimpanzés e por aí vai. Os ratos têm a mesma mente tacanha como aqueles que jogam o lixo em qualquer lugar, se bem que a diferença é grande. Aqueles pensam que estão se livrando de um problema, pois, sua inteligência é curta e não conseguem enxergar a extensão do seu grotesco ato. Os ratos, por outro lado, fazem uso do lixo para encontrar o seu sustento e não enxergam que na sua procura, por entre o lixo, vêm junto com este lixo, outros animais que trazem consigo doenças e consequentemente os contraem. Ou seja, os ratos “pegam” a doença e a levam consigo por onde vão. Voltando ao problema do meu amigo Atanásio, o preá, ele me contou que os ratos estão atravessando a ponte e têm enfrentado a sua família. É importante que se diga que os preás são muito amistosos, pacíficos. Que não querem briga e que não são covardes. Até porque eles procuram se defender de forma inteligente como não poderia deixar de ser, construindo proteções como túneis em forma de labirinto, etc. Mas, diz que está demais. A proximidade deles está provocando a saida de uns parentes seus. Estes estão procurando outros locais para morar. Perguntou-me se teria alternativas para acabar com este seu problema, senão teria que retirar a ponte ou teria que ir embora como os seus parentes. Mas que coisa, não? No momento pensei que este pequeno roedor estava me pondo em “cheque”. Aí, refleti melhor e entendi que ele deve ter pensado muito para vir até aqui procurar a minha ajuda. Vajam só! E como eu não consegui – eu não consegui apesar de ter procurado os recursos competentes como fiscais da saude e etc. – perdi o contato com o amigo e acabei ficando eu com o problema dele. Pois ele, tirando a ponte, os ratos ficaram somente do lado de cá. Eu até gostaria de dizer-lhe que, além dos ratos, nós humanos, com o lixo neste vala aberta atrás da minha casa, temos outros problemas que são as baratas, maruins, borrachudos, mosquitos (da dengue?)...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UM CASO ESTRANHO


Quando uma conversa está boa a gente perde a hora. Uma conversa puxa a outra e assim vai. Os ponteiros dos relógios não perdoam e vão correndo. Não param.
Uma amiga da minha mãe, a dona Lourdes, contou esse caso uma vez. Eu era um garoto de uns doze ou treze anos. A minha família estava junto com a família dela. Ela contava de um jeito todo especial. Ela era de origem italiana e gesticulava muito e era casada com um senhor bem mais velho do que ela. Ele era de origem alemã, um homem quieto, a mulher falava por ele e por ela, era claro e bem grisalho. Contou-nos que um dia, eles ainda moravam no sudoeste do Paraná, quando tinham ido na casa de um parente deles, voltaram tarde. O lugar era longe e isso não importava. Voltavam de carroça e sempre do mesmo jeito. O casal sentado na frente e os filhos atrás, dormindo entre as cobertas que sempre levavam, de propósito, nestas visitas. Quando digo sempre é sempre. Eles sempre faziam visitas. Como tinham onze filhos tinham, também, muitos compadres. Tanto batizavam os filhos dos outros como tinham os seus compadres que batizavam os seus filhos. Era uma troca, não é? Então, contava ela, que estavam quase dormindo ali na frente. Os cavalos, dois, passo miúdo, moroso, mas sempre chegando mais perto de casa. Não tinham pressa. Este negócio de pressa é uma coisa muito nova, muito recente. É desta nossa época. Bom, continuando. O céu em cima deles, estrelado, porém sem lua. Era lua nova. Não tinha lua nenhuma no céu. Ou melhor, estava ali, escura, assim dizem os professores. A lua fica escura, fica na sombra e daí a gente não vê ela. Bom, a estrada de terra se via no meio daquele breu. A lanterna que era de querosene ficava com as chamas tremelicando e pouco iluminando. Pelo menos dava para ver as pernas deles e os matos que ficavam na beirada da estrada. Pois, contra o céu dava para ver as árvores. Os bichinhos da noite faziam o seu barulho como a coruja com seu grito agudo e arrepiante, mortiço, o cricrilar dos grilos e lá numa lagoa, ouvia-se os sapos. Da carroça não dava para ver, apenas ouvia-se. O pássaro-fantasma, o urutau, levantou voo bem na frente deles. Parecia um mau presságio. Dizem que ele só sai quando a lua nasce e hoje não tem lua. “Uai, que lua é que vai nascer? Ou será que vai acontecer alguma coisa?” Um arrepio percorreu a espinha deles. Nem precisaram falar isso. Um olhou para o outro e se entenderam. Mais na frente, subindo a colina, virando a direita, chegariam numa Igreja que ficava no alto da estrada, do lado direito. Um, parecia um preá, atravessou pela frente deles. Um dos cavalos relinchou. O caminho que era iluminado pelas estrelas e pela lanterna começou a virar morro acima, para a direita. Dentro em pouco estariam na dita Igreja e avistaram ela. Mas, espera um pouco. Ela estava toda iluminada. Ué! Nem sabiam que teria missa de noite! Foram chegando, foram chegando devagar e ali, mais em cima ficava a Igreja. Para se chegar nela tinha que subir por uma rua em curva de uns cinquenta metros. Coisa pouca. A dona Lourdes ficou curiosa e pediu para seu marido parar a carroça. Atrás todos estavam dormindo naquela hora e nem deram sinal de se acordarem. O seu Wilmuth, parece o nome de outra história, mas é só coincidência, puxou as rédeas e parou os cavalos. Girou os freios e viu a dona Lourdes andar morro acima e só distinguia a sua roupa clara. Ela já estava chegando próximo e conseguia ouvir os cantos e as falas em latim. A missa estava sendo rezada em latim! Pensou. Coisa antiga. Desde 1960 e pouco não se rezava mais a missa em latim. E ela, ali, olhando para o interior da Igreja pela janela lateral. Diz ela que ficou de queixo caído. No altar o padre, como faziam antigamente, estava de costas para a comunidade e cantava a missa. A cada fala do padre a comunidade respondia em coro e cantado. O padre estava paramentado com aquelas vestes bonitas, coloridas e bordadas com esmero. O povo que assistia também usavam trajes antigos. Foi neste momento que ela percebeu que estava vendo uma missa diferente. Todos que ali estavam, estavam mortos! Eram fantasmas! Já tinham ido visitar o São Pedro e sei lá porquê ouviam uma missa. Aí ela pensou e por um momento sentiu um arrepio, coisa rara, e voltou para a carroça bem rápido e com medo que um daqueles ali viesse por trás e lhe segurasse pelas costas. Foi um já e estava sentada ao lado do Wilmuth. “Anda!” disse ela. O marido não queria dizer nada, mas quando ela desceu pela rua e pela aparência dela, branca, dava para ver de longe só com a luz das estrelas que algo estava fora do normal. Então, para adiantar, já tinha soltado o freio. Demorou um pouco e lá em cima do morrinho, do lado esquerdo da estrada viram uma coisa de se arrepiar da ponta dos pés aos fios escondidos dos cabelos. Eles nunca tinham visto, mas já tinham ouvido. Coisa de folclore e acontecia naquela noite. Uma mula-sem-cabeça! Era branca e no lugar da cabeça, com formato desta cabeça, fogo! Sabe, o fogo tinha o formato de cabeça. Deu uma empinada e disparou um trote morro abaixo. O seu Vilmuth apressou os cavalos que responderam rapidamente e dispararam, acho que eles tinham visto a coisa também e apressaram. Olhando meio de lado deu para ver que aquilo descia e vinha para o lado deles. Estava cada vez mais perto. A dona Lourdes fez uma coisa que estava longe de compreender que era ela mesma. Ela rezou alto! Coisa rara, pensou o seu marido. Era difícil ver a dona Lourdes fazer isso. É. Foi um ganho ter acontecido aquilo, né? Fazer a esposa rezar. Mas, voltando ao caso, a mula desembestou lá da colina e vinha para o lado deles. Então aconteceu que ela, a mula, passou por trás da carroça e subiu para o morro onde ficava a Igreja. Eles pararam e ficaram observando o que ia acontecer. Claro, se não vissem como nós iríamos saber como aquilo teria terminado? Uma história tem que ter alguém que veja para poder contar para todo mundo. E foi assim. A mula-sem-cabeça, e o seu fogo iluminava tudo por onde passava, deu a volta na Igreja e parou em frente a porta principal. Esperou um pouco e apareceu o Padre com algumas pessoas ao lado, logo atrás. Aí aconteceu uma coisa incrível! A mula começou a virar gente! Virou uma mulher! E além de ter virado uma mulher, estava vestida de noiva! Bem que diziam que a mula era uma mulher que tinha gostado de um Padre. A dona Lourdes disse que tinha pensado nisso e aí é que aconteceu o mais incrível disso tudo. O Padre estendeu a mão e os dois de mãos dadas entraram no Templo com aquelas outras pessoas atrás. Então, começou a ribombar o sino da Igreja. Será que era o casamento deles? Será que haviam sido perdoados? Disso não sei. A dona Lourdes não contou porque, nem ela e nem o seu Vilmuth quis voltar lá para ver o que tinha acontecido. Até que a história vale só até aqui. Cada um pode dar um final que quiser. Porém, pelo visto teve um final feliz com aquele sino todo que eles dizem que ouviram. Bem, continuando, a dona Lourdes contou que por um bom tempo ela ficou sem falar só para organizar as ideias, colocar as ideias em ordem e saber como contar para o Vilmuth o que tinha visto dentro daquela Igreja e o que tinha acontecido. Então, só de pensar ela já se arrepiava toda e olha que ela era uma mulher que não tinha medo de nada. O seu Vilmuth, do lado dele, nem perguntou nada e para quê, não é? Lidar com alguma coisa que não se entende não é fácil. Ainda mais com gente morta era diferente. E mais ainda com uma mula-sem-cabeça...! É ou não é?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Insólito

contosdaculturabrasileira.blogspot.com

Há um lugar aqui na nossa cidade que é um mistério. Neste lugar aconteceram coisas misteriosas, inexplicáveis. Sobrenaturais, eu diria. Algumas são de arrepiar os cabelos. São aqueles tipos de histórias que podem fazer alguém ter pesadelos durante uma semana inteira. Eu não quero botar um rótulo na localidade e também não quero que me persigam por dar o nome deste lugar, todavia eu preciso dizer. Fica na entrada do Itapocuzinho, ou Barra do Itapocuzinho. Ali já ouvi falar de coisas que um dia vou contar, ou melhor, vou escrever. Darei um exemplo de uma destas histórias. Apenas tomei a liberdade de não expor o nome do personagem real e dei um nome fictício. Vou começar.
O seu Dario morava sozinho bem ali no morro do Itapocuzinho. Ele era chamado de Caçador de Onça. Sujeito barbudo, grisalho e a cor da pele mais para jambo. Ele era baixinho e atarracado. Sua casinha era de “pau-a-pique” coberto com folhas de palmito. No lado de cima de onde ficava a casinha ele plantava milho e feijão misturados e arroz e feijão no lado de baixo. Também tinha um canto onde plantava batata doce e outras verduras. Não era grande coisa, mas servia para o gasto dele próprio. Vivia sempre sozinho como já disse. Uns dizem que tinha vindo do lado do Paraná fugindo na época da Guerra do Paraguai, como tantos outros. É preciso dizer que naqueles anos em que ele veio para cá escondido, o Exército pegava rapazes solteiros e levava a força para a linha de frente. Para a Guerra. Então, os que podiam fugir, fugiam. Já disse e repito, quem podia escapar, escapava. Ou então, como aconteceu muito também, o pai mandava casar para se livrar. Quem era casado não ia. Era o que se dizia e era o jeito. Uns disseram que ele trouxe uma moça para morar ali com ele e ela morreu. Aí, nunca mais casou. São coisas que falavam dele e eu só conto o que ouvi. Mas, vamos a história. Ele vivia assim e mais, levava o que caçava para vender ou trocar por coisas que ele precisava lá no Jaraguá. Além de ir até lá para conversar. Bem, dizem que pouco conversava. Sentava-se e ficava de olhos baixos. Apenas respondia o que perguntavam. Era um homem que pouco falava. Bom, um dia, e foi aí que aconteceu o fato insólito, que não dá pra explicar, ele estava limpando a espingarda de dois canos dele na entrada da porta, a munição em cima de uma mesinha mal feita, cartuchos para encher e a pólvora e papel ali também, quando, de repente, ele ouviu uma voz bem fininha, foi o que me contaram, que vinha do caminho. Ele olhou e não via nada. Foi então que percebeu uma dupla de ratinhos carregando uma carrocinha. Ué, ele olhou direito e viu que havia dois homenzinhos nessa carrocinha. Ele olhou e se benzeu! Foi que ouviu de novo a voz vindo ali de baixo e chegava mais para perto e entendeu o que dizia. Falava assim: “cuidado! Eles estão vindo, mas fique calmo que não vai acontecer nada! Fique calmo que não vai acontecer nada. Fique dentro da sua casinha! Calmo!” e vinha repetindo. Eram dois e só um falava pelo jeito que me contaram. A carrocinha passou até por perto dele e se meteu por dentro do arrozal. Contam que ele ficou sem se mexer e demorou para entender o que tinha acontecido. Aí é que está. Só mais tarde é que entendeu o que eles queriam prevenir. Foi que ele tinha terminado de limpar a arma e foi fazer o almoço dele, um pedaço de carne de caça, arroz e feijão. Lá fora ele ouviu uns uivos e um tropel de animais vindo morro abaixo. Passaram por cima, ali no mato, de onde era a casa dele quebrando tudo. E era aquela algazarra e ele estava indo ali para fora quando entrou um grupo de lobos guarás no terreiro dele. Quando ele viu, foi andando de fasto, entrou na casinha e foi tateando com movimentos bem lentos para procurar a espingarda. Encontrou-a e os lobos entraram porta adentro. Ficaram parados. Olhavam ora para ele e ora para fora. Ficaram assim por um tempo ele pegou a espingarda e foi bem lentamente colocando eles na mira. Mas em qual iria atirar. A espingarda era de dois canos e havia mais  de dois lobos. Um, dois, três, quatro, cinco. Não daria. Mas se pulassem nele, ele pegaria pelo menos dois. “O resto seria na base da faca”, foi assim que pensou, disseram. Só que eles não pulavam nele e nem saiam. Ué, porquê? Então começou um som bem alto. Parecia um ronco e um assobio juntos. Havia também estalos e som de coisas se quebrando. Estava cada vez mais perto pelo som que fazia. Estava cada vez mais alto os barulhos. As palhas da casinha começou a se abrir e já dava para ver o céu que estava meio cinzento e escuro em pleno meio-dia. O que será que era aquilo? Os lobos começaram a se juntar e a baixar as orelhas e a ficar agitados.  Aí, o seu Dario se segurou na espingarda já sem medo. Olhava dos lobos para fora e para o teto. Até que a coisa estava se acalmando do jeito que começou. Até que de um momento para o outro se acalmou. E do jeito que chegaram os lobos se foram. Ficou como se não tivessem ido até ali dentro da casa, a não ser que havia um molhadinho no lugar de um deles. Ficou pensando que, decerto foi o medo. Um lobo ficou com medo e molhou o lugar. Ué, pode ser, não é? Então ele olhou para fora, e foi saindo. Olhou para cima de onde veio aquele barulho todo. Subiu o morro e viu um lugar todo quebrado e retorcido. Parecia que haviam feito uma picada. Se colocassem carroças ali, dava para colocar umas dez uma do lado da outra. Foi o que o seu Dario pensou. Assim, olhou tudo e desceu para a casinha dele e foi terminar o seu almoço, estava com fome, porque depois teria que arrumar o seu telhado. A vida continuava e num outro dia teria o que contar lá no Jaraguá do que havia acontecido ali com ele. Agora ele teria o que conversar. Mas quando foi colocar a sua espingarda no lugar foi que viu os cartuchos sobre a mesa. Ora, o que significava que quando ele fez mira nos lobos, não tinha cartucho nenhum na espingarda. Se ele apertasse o gatilho, a única coisa que faria seria “plétch!” e nada mais. Então, dizem que ele pensou que seria uma história e tanto para contar lá no Jaraguá. Agora, se eles acreditariam seria outra coisa. Demorou para ele ser capaz de contar essa história. Ele achava que ele passaria por mentiroso e isso ele não era. Pelo sim, pelo não, achou melhor não contar nada.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

IARA

contosdaculturabrasileira.blogspot.com
A casa do Vilmuth ficava perto do rio. Ela ficava num sítio e este sítio era bem formado. Tinha quase de tudo. Ali eles plantavam o que comiam. Desde arroz, milho, batata até o café que tomavam. O que não tinham ali eles faziam escambo com os vizinhos. Sabe, faziam o escambo, a troca. Trocavam o que tinham com o que não tinham. Claro. Com o que o vizinho plantavam. O sítio era praticamente tudo várzea. Mais para os fundos do terreno é que era mais alto. Bom. Neste sábado – era um sábado - , ele tinha terminado de fazer tudo o que a mãe dele tinha pedido e um pouco mais. Ele tinha que terminar! E fez tudo às pressas, mas bem feitinho. Ele conhecia bem a mãe que tinha. O bom é que o seu primo Carl tinha passado por ali e dado uma ajudazinha. Foi ele que convidou para ir a um baile. Quando terminou, foi até o cocho de lavar roupa e se lavou. Se lavou bem. Lavou os braços e a cabeça com um pedaço de sabão. Estava com pressa, pois o baile lá em Santa Luzia, na casa dos Klein, ia começar pelas seis da tarde. Sabe como é. Em casa de família baile começa cedo e termina cedo. Mas também, todo mundo tinha que acordar cedo. A criação tinha que comer de manhã e elas não podem pegar sozinhas, não é? Já tinha falado para a mãe que pelas onze da noite já estaria de volta. Por falar em volta, ele teria que ir antes ao Jaraguá comprar uma camisa nova. Como ele tinha crescido, na hora de pôr a camisa, ela rasgou embaixo do braço e nas costas. A mãe disse que ia remendar a camisa e pô-la para o trabalho. Então, ele falou pro primo que se encontrariam lá na casa do Klein. Ele não poderia ajudar a limpar e afastar as coisas de dentro do celeiro para fazer o baile, mas ia tentar chegar mais cedo. Como ele havia rasgado a camisa teria que ir para o Jaraguá. Ele já estava precisando de uma camisa mesmo. Então, foi no celeiro e pegou as velas que havia feito. Sim, o Vilmuth tinha encontrado uma colmeia. Fez um fogo embaixo da cachopa, colocou bastante folha verde e tirou-a dali. Conseguiu com isso o mel e mais a cera. Com a cera fez velas. Cortou um bocado de bambu do tamanho das velas que queria, mais uns barbantes e estava feito as velas e com elas iria trocar pela camisa. Já havia imaginado tudo. Esta noite chegaria ao baile com uma camisa nova. Chegou a sorrir com isso e gabou-se para o primo. Os dois sairam. Cada um com o seu cavalo. Eles tinham que passar pelo rio. Naquela época não havia ponte e atravessavam mais acima da casa do Vilmuth. Ali era raso e os cavalos ficavam com água pelos tornozelos. Agora, em dia de chuva, nem pensar. Era muito perigoso e a mãe dele sempre dizia que ele precisava se cuidar. Os antigos falavam em sereias do rio e ele sempre brincava que eram coisas que se traziam lá da Europa. Sereia era coisa de lá e não daqui do Brasil. Se é que existisse. Mulher meio peixe! Era só o que faltava, ria ele.
Quando chegaram do outro lado do rio os dois se despediram. O primo dele, o Carl, foi para a sua casa lá em Santa Luzia ajudar o seu Klein a limpar o celeiro e o Vilmuth iria trocar as velas que havia feito pela camisa. Ia tentar, não é? Desceu costeando o barranco. O rio ficava do lado esquerdo. Ali havia uma picada que todos usavam e que dava para passar uma carroça. Os sulcos das rodas estavam bem fundos. Por entre as árvores e arbustos que ficava entre a picada e o rio, via-se o rio. Ele ia todo feliz só de pensar que estaria dançando com uma camisa nova. Ia fazer bonito aquela noite. As moças todas olhando para ele e reparando na camisa. Caso a camisa fosse mais cara não haveria problema se ficasse devendo. Ele marcaria no caderno. Pagaria outro dia.
Ao olhar para o lado do rio viu uma moça sentada numa pedra. A vegetação atrapalhou a visão e ele parou o cavalo. Procurou por entre as folhas uma melhor visão. Era uma moça mesmo e estava sentada numa pedra. Ela tinha os cabelos pretos e compridos. Os cabelos tapava-lhe a parte da frente do seu corpo. Ficava por cima dos seus seios. Via-se parte das suas costas e dos seus braços. Ela o viu e chamou a sua atenção levantando os seus braços e acenando. Por um momento ele ficou com cara de bobo e depois ficou admirado com o que viu. Ele fez tudo automaticamente. Desceu do cavalo, começou a tirar a camisa. Viu-se pulando com um pé só e tirando a bota do outro pé. Ficou só de calça. Olhou para onde estava a moça e pulou na água. Só que, antes de cair de cabeça na água ele viu que ela havia feito o mesmo. Náo tinha mais ninguém em cima da pedra. Aí, ele sentiu um arrepio. Do jeito que caiu na água, com aquele impulso mesmo, fez meia volta antes de ficar com a cabeça de fora. O arrepio veio de novo e deu nova força para ele nadar mais rápido. Ele se percebeu apavorado e quase sem respirar ele chegou na beirada e viu uma árvore que tinha as raizes para dentro da água. Agarrou-se ali e tentou sair, porém sentiu um puxão na perna. Alguma coisa puxou ele para baixo. Foi para o fundo da água de novo. Aí, engoliu água. Ele ficou apavorado e tentou forçando para sair. Aquilo que puxava a sua perna, cortava a sua carne das canelas. Então, ele olhou para baixo e viu o seu sangue misturar-se com a água. Então, ele se lembrou da faca que tinha na cintura. Todo mundo naquele tempo usava uma faca. Pegou essa faca da cintura com uma mão e com a outra fez força para cima e quando quase tinha tirado toda a perna para fora da água, ele lascou uma facada na altura onde ele achava que estava aquilo que segurava a sua perna. A água ficou mais vermelha e viu-se livre. Saiu da água e nem lembrou de pegar nada. Do jeito que estava ele queria era sair dali o mais rápido possível. Pulou no cavalo, fez meia volta sem olhar para o rio. Não quis nem saber o que era aquilo que tinha feito aqueles cortes na sua perna que sangrava e chegava a pingar no chão. Camisa nova? Outro dia. Baile? Não, não. E depois voltar e ter que atravessar o rio de noite? Nem pensar. Foi o que pensou. Agora era pensar em como ia chegar em casa e contar para a mãe o que havia acontecido.  Ai, ai, ai! O jeito era dizer que havia caído do cavalo no meio de um espinheiro. É. Era o jeito. Nem queria dizer a ela que ela tinha razão quando falava sobre Sereias. Pensou muitas coisas. A dor fazia ele ficar pensando. E pensando que Sereia e Iara eram a mesma coisa. E também que a única diferença entre aquele ser do rio daqui do Brasil e os da Europa, como contavam, era a cor dos cabelos. O resto, a mesma coisa! Passado algum tempo, vemos a mãe desconfiada. Era um dia bem quente. Ela ficou pensando que seria ótimo num dia como aquele tomar um banho de rio. Ela até falou com o seu filho, mas ele deu uma desculpa e foi capinar a roça com aquele solzão. Lá teve tempo para pensar. Vai que ele chega no rio e dá de cara com ela de novo. Só de pensar já tinha um arrepio. Pescar no rio? Não, não pesca mais no rio, não.  Talvez ela esteja ali e..., melhor não. Comer peixe? Só se for bem frito. Vai que seja o filho dela!!! Melhor não. E continuou a capinar.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

VISAGENS

contosdaculturabrasileira.blogspot.com


O nome da dona da casa era Sinhá Josefa. Uma senhora de estatura baixa, entroncada, acostumada aos serviços pesados, pois ajudava o marido na lida da roça. A sua tez era morena, enrugada pelo sol. Ela pigarreou, sorriu para as visitas e ofereceu o chimarrão para elas. O marido dela todos chamavam de sinhô Tonho Tolete. Um homem baixo e troncudo. Fazia um casal interessante. Ornavam um para o outro. Dizem que o homem escolhe a sua esposa mais parecida com a sua mãe, do jeito que era a sua mãe, não é? Bem, continuando, as visitas estavam ali desde que tiraram o leite das vacas e deram o trato para elas, as vacas. E elas, as visitas, ajudaram bastante. Jantaram e foram para a varanda que era da largura da casa, grande e espaçosa. Estavam sentados alguns em cadeiras, no banco e o casal, cada um na sua cadeira de balanço. Estavam lembrando de causos que é um costume comum por aquelas paragens. O seu Neno lembrou do seu Laurindo que, de novo, tinha visto a mulher que andava por cima da água quando foi pescar naquele sábado. É que de vez em quando ele via a tal mulher, meio transparente, com um vestido branco esvoaçante indo com a correnteza. Quando ele contava se arrepiava todo e quem mostrava, agora, os bracinhos todos arrepiados eram os pequenos que estavam ali na varanda e sorriam uns para os outros. O sinhô Tonho Tolete fez lembrar, e todos riram, daquela vez que a dona Zica, aquela mulher que cuidava da vida dos outros, todos os dias via uma luizinha que descia lá de onde era a casa do seu Capistrano. Ela vinha descendo, descendo, dava uma voltinha e desaparecia onde tinha um riacho. Todos os dias era a mesma coisa até ela descobrir que era o filho mais velho dele, do seu Capistrano, que ia trabalhar todos os dias na Usina de Açúcar. Ele trabalhava no turno da noite. Ele descia pela trilha do morro para cortar caminho e que era todo em curva por causa do próprio morro que era uma descida forte, passava por um quebra-corpo, por isso a voltinha e ia até a beirada do rio que tinha um matagal. Quando ela descobriu, a dona Zica, ficou sem ir pra janela por uns dias. Meio com vergonha. Todos os que estavam ali riram e a dona Bete, mulher do seu Neno, falou que era o costume feio dela de ficar espiando a vida dos outros e contando para meio mundo. Aí, ela esticou a conversa para a família dos Lima que moravam no Entroncamento, perto de Telêmaco Borba, no Paraná. Contava sobre o que a dona da casa e a filha mais velha viram no sótão da casa deles. A primeira quem viu a visagem foi a menina dela que tinha uns quatorze anos, mais ou menos, naquela época. Hoje ela deve beirar uns trinta e cinco e a mãe dela deve ter uns cinquenta e três ou cinquenta e quatro. A primeira vez que ela viu foi num dia que ela tinha ido lá no sótão arrumar a bagunça dos irmãos dela, dos meninos. Arrumar o quarto deles. Os irmãos homens, todos, dormiam no sótão e imaginem a bagunça! Outra coisa, não era só arrumar, não. Era recolher as roupas sujas para lavar lá no tanque. No “muque”. Na mão. Só água e sabão. Serviço que levaria daquela hora até perto do meio-dia. Então, ela estava ali separando as roupas limpas das sujas e recolhendo num balaio para levar lá para trás, quando viu uma luz se formar num canto do sótão. Ela se arrepiou, foi ela que contou. Ela disse que se arrepiou todinha. Dos pés a cabeça. Ela disse que ficou sem se mexer. Mas, quando começou a aparecer o corpo de uma pessoa. Ela sabia que era de uma moça e não sabia porque, mas era de uma moça. Então, ela se despencou para baixo. Desceu correndo, gritando e a mãe dela veio da cozinha e se encontraram no pé da escada. A mãe dela disse que ela estava com os olhos muito abertos, arregalados e não conseguia falar. Pediu para ela sentar e quando ia buscar água ela não queria ficar sozinha. Claro, né. Imagine o medo. A mãe disse que ela estava gelada e toda arrepiada. Não conseguia falar e nem chorar direito. Quando começou a falar a mãe achou, foi o que ela disse, que achava que era uma brincadeira dos meninos. Gritou lá de baixo para que eles parassem e que descessem, senão ela iria subir e que iria subir com o “rabo de tatu”. O rabo de tatu muito comum naquela época. Uns usavam a vara outros esse “rabo de tatu”. Era com essas coisas que usavam para dar um castigo nas crianças e também nas que não eram tão crianças. Mas foi assim, a menina começou a falar que tinha visto uma luz forte. Não eram os irmãos dela. Era uma coisa que estava se formando lá em cima. Aí, a mãe esqueceu o rabo de tatu, se sentou na cadeira ao lado da menina e ficou séria. Claro, era uma coisa muito séria. Não era a primeira vez que tinha ouvido falar nestas coisas. Foi aí que ela começou a lembrar das coisas que já haviam acontecido com outras pessoas. É importante ouvir as histórias das outras pessoas. Assim, a gente aprende. A gente aprende com as experiências das outras pessoas, não é mesmo? Então. Ela passou a mão numas velas. Pegou uma e deu uma para a menina. Menina. Menina, não. Uma quase mocinha, né? As duas subiram a escada, não antes de ver se o isqueiro estava no bolso do avental e a mãe pegou na mão da filha e apertou. Sabe, para dar força e coragem. Para dizer sem falar que estão juntas, para o que der e vier, entende? Subiram assim. A escada para o sótão era estreita. Só cabia uma pessoa de cada vez. A mãe subiu na frente. Por isso ela puxava a filha. Lá em cima não se ouvia nada. Era de um lance só. Não era comprida. Tinha, o quê, uns dois metros e meio, se muito. Ela esperava para ver aquela coisa que a filha havia dito. Uma luz forte com uma pessoa no meio. Mas, nada. Quando colocou a cabeça para fora não tinha nada. Tudo quieto. O balaio estava ali tombado. As roupas dos meninos no chão. As camas desarrumadas. Os varais das roupas com algumas peças. Sabe, em alguns lugares eles usam varais, sabe varais? Usam para colocar as roupas para guardar. Não tem guardarroupas. Bem, vamos continuar. Como não havia nada elas, as duas, começaram a arrumar esperando que aparecesse de novo aquela visagem. Quando tinham terminado e quase que esquecido do tinha acontecido, daquilo que tinha ocorrido e estavam quase saindo pela escada apareceu novamente a luzinha atrás delas. A mãe quase caiu pela escada abaixo. A filha gritou e acudiu segurando pela manga da blusa da mãe. Viraram-se e viram. Viram alguma coisa se formando ali na frente delas. A mulher contou que o coração começou a bater forte que quase saiu pela boca. Os cabelos se arrepiaram todos. Os da nuca ,então... pareciam que estavam furando o lenço que ela usava na cabeça. A filha se agarrava na mãe, escondia a cabeça e os olhos que fechava se abraçado e se protegendo na mãe. Mãe é mãe, não é? De vez em quando dava uma espiadinha e voltava a se agarrar forte. Na frente delas uma imagem se formou e apareceu uma mocinha. Ela estava com as mãos juntas sobre o peito. Ela apertava as mãos. A mulher, mãe da moça, contou que as roupas daquela que apareceu ali na frente usava umas roupas bem antigas. Ela tinha um olhar triste e não falava nada. Só olhava para elas e esfregava as mãos. Então, a dona da casa se lembrou das histórias que os outros contavam. Vejam só como é bom conhecer as experiências dos outros. As histórias dos outros. Ela olhou para a mocinha bem nos olhos e disse que acenderia uma vela para ela e a filha acenderia outra, mas que ela fosse embora e em paz. Que não viesse mais ali porque eles ficavam com medo. A moça sorriu e sumiu com um aceno de cabeça. Baixou os olhos e se foi. As crianças que ouviam sentadas nos bancos e nas cadeiras mostravam os braços e esfregavam nas pernas os pelos arrepiados, sorrindo. Quando digo as crianças, é só modo de dizer. Não sei quem era filho de quem. Ali estavam desde pequenos até mocinhos e mocinhas. Mas, já estava tarde e com esta história foram se levantando. Ainda a sinhá Josefa lembrou o sinhô Tonho Tolete de que aquela história parecia com a da dona Maria do seu Carlão. Num parecia? Aquela visagem que pediu vela e eles ficaram acendendo por um tempão. As visitas foram descendo a escada da varanda, falando sobre o céu estrelado, se despedindo e convidando cada um para a próxima visita, acenderam as velas das lanternas e os cachorros sairam de debaixo da casa latindo. O sinhô Tonho tocou eles e as visitas desceram pela escuridão e aí, só se via umas luzes pelo caminho até desaparecer lá longe. Na casa, ali, continuaram acenando com as mãos e desejando uma boa noite. Quando desapareceram lá longe, o casal tocou os filhos para a cama e fecharam a porta da rua. Apareceu, ainda, alguém fechando as janelas e as luzes se apagaram. Apenas dava para ver a parte da casa que a luz das estrelas iluminavam.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A bruxa de sombrinha de bolinhas



O seu Manoel conseguiu um emprego em Apucarana, lá no estado do Paraná. Foi primeiro só ele e depois de conseguir um lugar para levar a família, levou.
Era uma casa dividida ao meio. Eles chamam de parede e meia. Tinha dois quartos, uma cozinha grande que servia de sala também e um banheiro que ficava na varanda, num plano mais baixo.
Pois bem. O seu Manoel conseguiu um emprego de guarda de segurança numa grande empresa. Fez curso e tudo. Fez defesa pessoal, curso de tiro e outras coisas que precisa ter na profissão. Ele estava feliz. Mas vai que um dia, na outra metade da casa entra um casal. Este casal tinha um bebê. Este bebê chorava direto. Mas, direto mesmo! Uma coisa assim que era de enjoar. E chora e chora. Passava os dias e nada do bebê parar. E olha só. O seu Manoel trabalhava em turno que é trabalhar, às vezes de dia e às vezes a noite. Quando era trabalhar a noite é que ficava difícil. O homem queria dormir e não conseguia. Então, teve um dia que ele pediu, meio que mandando, porque ele já estava passado de sono e quem perde o sono fica sem paciência, fica nervoso, pediu assim para a dona Nicota - era assim que se chamava a mulher dele. “Nicota, minha mulher! Você tem que ir ali do outro lado falar com a mãe desse bebê que não para de chorar. Eu quero dormir e não consigo, mulher e eu tenho que trabalhar a noite. Assim não dá! Eu tenho que dormir!” E lá foi a dona Nicota. Meio sem graça, chegou dizendo boa tarde, como é que está e coisa e tal. Aí, perguntou da criança. A dona da casa, a tal vizinha disse que ele estava bem. Foi aí que a dona Nicota falou que escutava ele chorar e foi por isso que ela foi até ali. Assim, começaram a conversar. A dona Nicota contou que o marido trabalhava de noite, as vezes, e que quando queria dormir não conseguia por causa do chororô da criança. Perguntou se ela já tinha levado no Posto de Saúde e a mulher disse que já tinha feito de tudo e o bebê continuava a chorar e a emagrecer. O choro dele também estava ficando mais fraquinho. Ali, a dona Nicota que já era bem vivida e sabia das coisas, se preocupou e sugeriu que a mulher, quando fosse de noite, que ela ficasse acordada e prestasse atenção no que acontecia. Porém a mulher vizinha disse que não conseguia ficar acordada. Não sabia o que acontecia e começava a ficar mole, o olho pesava e acabava dormindo. Só acordava de manhã e lembrava que a noite havia passado. O marido que também trabalhava fora e só vinha no fim de semana, nem ajudava. Se ele estivesse ali, pelo menos... Quando a vizinha falou que não conseguia dormir a noite, a dona Nicota teve um estalo. Alguma coisa estava errada. A coisa de não saber o que acontecia durante a noite é que martelava a cabeça dela. Então entraram num acordo. A dona Nicota iria dormir de noite na casa dela. Ela iria ajudar.
A noite chegou. A dona Nicota deixou os filhos – ela e o seu Manoel tinham dois filhos já grandinhos – depois de comer e de botá-los para dormir, foi para a casa do lado e foram para a cama. Combinaram que ficariam acordadas, claro. Era essa a intenção de dona Nicota ter ido até ali. Nenhuma das duas poderia dormir. Seria difícil? Elas não sabiam. Mas ficou acertado que uma chamaria a outra se a outra dormisse. Elas estavam assustadas. Não sabiam o que iria acontecer. As primeiras horas foi fácil. Falavam baixinho e até riam da situação. Elas estavam nervosas e o nervosismo deixa a gente rir à toa. O bebê depois de comer havia dormido. Então estava até engraçado. O tique-taque do relógio dava para ouvir facinho, facinho. Até parecia ser mais alto e dava mais medo. Qualquer coisa aquela hora deixava elas com medo, mais assustadas. Em alguns momentos elas se olhavam e ficavam arrepiadas e mostravam os braços uma para a outra com os pelos eriçados, os pelos levantados. O pio da coruja, do cricrilar do grilo, um gato gritando o seu miado de namoro lá longe, era para arrepiar.
Foi num momento que os sons iam ficando mais longe. O cansaço foi batendo e aí, parecia que tudo tinha ficado em silêncio. Devia ser por volta da meia-noite. Sabe, todas estas coisas acontecem por volta da meia-noite. Para mim já passava da meia-noite. Enfim, a cabeça de cada uma delas tinha, parecia, ficado mais leve, relaxada. Os olhos tinham ficado pesados. O corpo experimentava aquela cama gostosa e ia dando um sono difícil de resistir... Mas elas não podiam. Tinham que ficar acordadas. A dona Nicota bateu de leve chamando a vizinha para ficar acordada. Ela já estava quase ressonando e deu um estremecimento. Alguma coisa estava acontecendo. Não estava normal. Dava pra sentir. Veio uns arrepios quando perceberam uma luz vindo do lado da porta. Se encolheram embaixo das cobertas. Haviam combinado que só ficariam acordadas para ver o que acontecia. Não iam fazer mais nada do que isso. Sei lá o que poderia acontecer... A luz que vinha era esverdeada. Com aquela luz verde conseguiam até enxergar o olho uma da outra por debaixo das cobertas. Elas até se falavam pelos olhos. Pelo olho dava para ver o pavor que sentiam. Foi então que lembraram porque estavam ali acordadas. Era para ver o que acontecia com a criança. O que é que deixava a criança chorando e emagrecendo daquele jeito. O bebê estava ali do lado. Sozinho ali. Tomaram coragem, falavam pelos olhos, e procuraram ver o que acontecia. Mas tinha que ser com bastante cuidado para não chamar a atenção. Para não serem notadas. Então, aí, viram uma coisa que nunca tinham visto. Era uma mulher. Não se via o rosto, mas era uma mulher. Ela voava, ela flutuava acima do chão do quarto. Vinha devagarinho voando. Tinha uma roupa dessas bem antigas e uma sombrinha de bolinhas. Tinha, também, uma espécie de capa que ficava pendida por cima dos ombros e foi com essa capa que, quando chegou perto do berço, ali do lado, que ajeitou por cima deste berço tapando ele e ouviram ela aspirando o ar. Cada vez que ela aspirava assim, chupando o ar, saia uma nuvenzinha de um branco bem leve e entrava pela boca dela. Ela aspirava bem devagar. Aspirava devagar. E ficou ali por um bom tempo e as duas mulheres vendo e não podiam fazer nada. Parece que tinham virado estátuas. Estavam duras. Elas não podiam se mexer. Num momento, do mesmo jeito que entrou a mulher saiu. Só não sabem se foi de costas ou de frente. Elas não sabiam dizer. Quando perceberam de novo já era de manhã. A cabeça estava leve e o bebê chorava ali do lado. Aí as duas começaram a se lembrar do que tinha acontecido naquela noite e começaram a contar as coisas que se lembravam. Contavam uma para a outra e se arrepiavam de novo, assim como se arrepiaram naquela hora que aconteceu. Os pelos ficavam de pé de novo. Coisa incrível. A dona Nicota teve uma ideia. Perguntou se a criança era batizada e a moça envergonhada disse que não tinha sido. Eles não eram casados de papel passado. Lá no cartório, sabe. Vocês sabem que o batismo é importante nestes casos e resolveram que iam batizar naquele dia mesmo. Só esperaram o seu Manoel chegar do trabalho e batizaram ali na casa mesmo. Aí, foi que nem tirar com a mão. A bruxa nunca mais apareceu. O menino começou a tomar corpo, engordar. Coisa que não fazia a tempos e cresceu. O seu Manoel depois de uns tempos teve que mudar, porque a empresa dele mandou ele para outra cidade e perderam contato com aquela família. Mas, eu acredito que ele, a criança e a família devem estar bem. A família do seu Manoel e da dona Nicota também estão bem. Os filhos cresceram e se casaram. Tiveram filhos também. Para não ter que enfrentar a bruxa eles tinham o costume de primeiro batizar em casa. Vá lá que ela aparece. Melhor é não facilitar.
Olá.
Pensei em fazer este blog primeiro porque gosto de escrever contos. Em segundo porque escrevi alguns contos que gostaria de apresentar a quem gosta de ler. Claro. A função do escritor é escrever e a função do que foi escrito é ser lido. Estes contos e outros que pretendo escrever e postar aqui, são baseados em causos que ouvi quando criança, ao lado de fogão a lenha, ao lado da família. Foi num tempo que não havia televisão pelos lados de onde morava. Vim a conhecer esta em 1968 em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Aí, tornou-se mais raros aqueles momentos afetivos em que se parava para se ouvir histórias e conversar sobre acontecimentos do cotidiano. Bons tempos aqueles.