Há um lugar aqui na nossa cidade que é um mistério. Neste lugar aconteceram coisas misteriosas, inexplicáveis. Sobrenaturais, eu diria. Algumas são de arrepiar os cabelos. São aqueles tipos de histórias que podem fazer alguém ter pesadelos durante uma semana inteira. Eu não quero botar um rótulo na localidade e também não quero que me persigam por dar o nome deste lugar, todavia eu preciso dizer. Fica na entrada do Itapocuzinho, ou Barra do Itapocuzinho. Ali já ouvi falar de coisas que um dia vou contar, ou melhor, vou escrever. Darei um exemplo de uma destas histórias. Apenas tomei a liberdade de não expor o nome do personagem real e dei um nome fictício. Vou começar.
O seu Dario morava sozinho bem ali no morro do Itapocuzinho. Ele era chamado de Caçador de Onça. Sujeito barbudo, grisalho e a cor da pele mais para jambo. Ele era baixinho e atarracado. Sua casinha era de “pau-a-pique” coberto com folhas de palmito. No lado de cima de onde ficava a casinha ele plantava milho e feijão misturados e arroz e feijão no lado de baixo. Também tinha um canto onde plantava batata doce e outras verduras. Não era grande coisa, mas servia para o gasto dele próprio. Vivia sempre sozinho como já disse. Uns dizem que tinha vindo do lado do Paraná fugindo na época da Guerra do Paraguai, como tantos outros. É preciso dizer que naqueles anos em que ele veio para cá escondido, o Exército pegava rapazes solteiros e levava a força para a linha de frente. Para a Guerra. Então, os que podiam fugir, fugiam. Já disse e repito, quem podia escapar, escapava. Ou então, como aconteceu muito também, o pai mandava casar para se livrar. Quem era casado não ia. Era o que se dizia e era o jeito. Uns disseram que ele trouxe uma moça para morar ali com ele e ela morreu. Aí, nunca mais casou. São coisas que falavam dele e eu só conto o que ouvi. Mas, vamos a história. Ele vivia assim e mais, levava o que caçava para vender ou trocar por coisas que ele precisava lá no Jaraguá. Além de ir até lá para conversar. Bem, dizem que pouco conversava. Sentava-se e ficava de olhos baixos. Apenas respondia o que perguntavam. Era um homem que pouco falava. Bom, um dia, e foi aí que aconteceu o fato insólito, que não dá pra explicar, ele estava limpando a espingarda de dois canos dele na entrada da porta, a munição em cima de uma mesinha mal feita, cartuchos para encher e a pólvora e papel ali também, quando, de repente, ele ouviu uma voz bem fininha, foi o que me contaram, que vinha do caminho. Ele olhou e não via nada. Foi então que percebeu uma dupla de ratinhos carregando uma carrocinha. Ué, ele olhou direito e viu que havia dois homenzinhos nessa carrocinha. Ele olhou e se benzeu! Foi que ouviu de novo a voz vindo ali de baixo e chegava mais para perto e entendeu o que dizia. Falava assim: “cuidado! Eles estão vindo, mas fique calmo que não vai acontecer nada! Fique calmo que não vai acontecer nada. Fique dentro da sua casinha! Calmo!” e vinha repetindo. Eram dois e só um falava pelo jeito que me contaram. A carrocinha passou até por perto dele e se meteu por dentro do arrozal. Contam que ele ficou sem se mexer e demorou para entender o que tinha acontecido. Aí é que está. Só mais tarde é que entendeu o que eles queriam prevenir. Foi que ele tinha terminado de limpar a arma e foi fazer o almoço dele, um pedaço de carne de caça, arroz e feijão. Lá fora ele ouviu uns uivos e um tropel de animais vindo morro abaixo. Passaram por cima, ali no mato, de onde era a casa dele quebrando tudo. E era aquela algazarra e ele estava indo ali para fora quando entrou um grupo de lobos guarás no terreiro dele. Quando ele viu, foi andando de fasto, entrou na casinha e foi tateando com movimentos bem lentos para procurar a espingarda. Encontrou-a e os lobos entraram porta adentro. Ficaram parados. Olhavam ora para ele e ora para fora. Ficaram assim por um tempo ele pegou a espingarda e foi bem lentamente colocando eles na mira. Mas em qual iria atirar. A espingarda era de dois canos e havia mais de dois lobos. Um, dois, três, quatro, cinco. Não daria. Mas se pulassem nele, ele pegaria pelo menos dois. “O resto seria na base da faca”, foi assim que pensou, disseram. Só que eles não pulavam nele e nem saiam. Ué, porquê? Então começou um som bem alto. Parecia um ronco e um assobio juntos. Havia também estalos e som de coisas se quebrando. Estava cada vez mais perto pelo som que fazia. Estava cada vez mais alto os barulhos. As palhas da casinha começou a se abrir e já dava para ver o céu que estava meio cinzento e escuro em pleno meio-dia. O que será que era aquilo? Os lobos começaram a se juntar e a baixar as orelhas e a ficar agitados. Aí, o seu Dario se segurou na espingarda já sem medo. Olhava dos lobos para fora e para o teto. Até que a coisa estava se acalmando do jeito que começou. Até que de um momento para o outro se acalmou. E do jeito que chegaram os lobos se foram. Ficou como se não tivessem ido até ali dentro da casa, a não ser que havia um molhadinho no lugar de um deles. Ficou pensando que, decerto foi o medo. Um lobo ficou com medo e molhou o lugar. Ué, pode ser, não é? Então ele olhou para fora, e foi saindo. Olhou para cima de onde veio aquele barulho todo. Subiu o morro e viu um lugar todo quebrado e retorcido. Parecia que haviam feito uma picada. Se colocassem carroças ali, dava para colocar umas dez uma do lado da outra. Foi o que o seu Dario pensou. Assim, olhou tudo e desceu para a casinha dele e foi terminar o seu almoço, estava com fome, porque depois teria que arrumar o seu telhado. A vida continuava e num outro dia teria o que contar lá no Jaraguá do que havia acontecido ali com ele. Agora ele teria o que conversar. Mas quando foi colocar a sua espingarda no lugar foi que viu os cartuchos sobre a mesa. Ora, o que significava que quando ele fez mira nos lobos, não tinha cartucho nenhum na espingarda. Se ele apertasse o gatilho, a única coisa que faria seria “plétch!” e nada mais. Então, dizem que ele pensou que seria uma história e tanto para contar lá no Jaraguá. Agora, se eles acreditariam seria outra coisa. Demorou para ele ser capaz de contar essa história. Ele achava que ele passaria por mentiroso e isso ele não era. Pelo sim, pelo não, achou melhor não contar nada.