A casa do Vilmuth ficava perto do rio. Ela ficava num sítio e este sítio era bem formado. Tinha quase de tudo. Ali eles plantavam o que comiam. Desde arroz, milho, batata até o café que tomavam. O que não tinham ali eles faziam escambo com os vizinhos. Sabe, faziam o escambo, a troca. Trocavam o que tinham com o que não tinham. Claro. Com o que o vizinho plantavam. O sítio era praticamente tudo várzea. Mais para os fundos do terreno é que era mais alto. Bom. Neste sábado – era um sábado - , ele tinha terminado de fazer tudo o que a mãe dele tinha pedido e um pouco mais. Ele tinha que terminar! E fez tudo às pressas, mas bem feitinho. Ele conhecia bem a mãe que tinha. O bom é que o seu primo Carl tinha passado por ali e dado uma ajudazinha. Foi ele que convidou para ir a um baile. Quando terminou, foi até o cocho de lavar roupa e se lavou. Se lavou bem. Lavou os braços e a cabeça com um pedaço de sabão. Estava com pressa, pois o baile lá em Santa Luzia, na casa dos Klein, ia começar pelas seis da tarde. Sabe como é. Em casa de família baile começa cedo e termina cedo. Mas também, todo mundo tinha que acordar cedo. A criação tinha que comer de manhã e elas não podem pegar sozinhas, não é? Já tinha falado para a mãe que pelas onze da noite já estaria de volta. Por falar em volta, ele teria que ir antes ao Jaraguá comprar uma camisa nova. Como ele tinha crescido, na hora de pôr a camisa, ela rasgou embaixo do braço e nas costas. A mãe disse que ia remendar a camisa e pô-la para o trabalho. Então, ele falou pro primo que se encontrariam lá na casa do Klein. Ele não poderia ajudar a limpar e afastar as coisas de dentro do celeiro para fazer o baile, mas ia tentar chegar mais cedo. Como ele havia rasgado a camisa teria que ir para o Jaraguá. Ele já estava precisando de uma camisa mesmo. Então, foi no celeiro e pegou as velas que havia feito. Sim, o Vilmuth tinha encontrado uma colmeia. Fez um fogo embaixo da cachopa, colocou bastante folha verde e tirou-a dali. Conseguiu com isso o mel e mais a cera. Com a cera fez velas. Cortou um bocado de bambu do tamanho das velas que queria, mais uns barbantes e estava feito as velas e com elas iria trocar pela camisa. Já havia imaginado tudo. Esta noite chegaria ao baile com uma camisa nova. Chegou a sorrir com isso e gabou-se para o primo. Os dois sairam. Cada um com o seu cavalo. Eles tinham que passar pelo rio. Naquela época não havia ponte e atravessavam mais acima da casa do Vilmuth. Ali era raso e os cavalos ficavam com água pelos tornozelos. Agora, em dia de chuva, nem pensar. Era muito perigoso e a mãe dele sempre dizia que ele precisava se cuidar. Os antigos falavam em sereias do rio e ele sempre brincava que eram coisas que se traziam lá da Europa. Sereia era coisa de lá e não daqui do Brasil. Se é que existisse. Mulher meio peixe! Era só o que faltava, ria ele.
Quando chegaram do outro lado do rio os dois se despediram. O primo dele, o Carl, foi para a sua casa lá em Santa Luzia ajudar o seu Klein a limpar o celeiro e o Vilmuth iria trocar as velas que havia feito pela camisa. Ia tentar, não é? Desceu costeando o barranco. O rio ficava do lado esquerdo. Ali havia uma picada que todos usavam e que dava para passar uma carroça. Os sulcos das rodas estavam bem fundos. Por entre as árvores e arbustos que ficava entre a picada e o rio, via-se o rio. Ele ia todo feliz só de pensar que estaria dançando com uma camisa nova. Ia fazer bonito aquela noite. As moças todas olhando para ele e reparando na camisa. Caso a camisa fosse mais cara não haveria problema se ficasse devendo. Ele marcaria no caderno. Pagaria outro dia.
Ao olhar para o lado do rio viu uma moça sentada numa pedra. A vegetação atrapalhou a visão e ele parou o cavalo. Procurou por entre as folhas uma melhor visão. Era uma moça mesmo e estava sentada numa pedra. Ela tinha os cabelos pretos e compridos. Os cabelos tapava-lhe a parte da frente do seu corpo. Ficava por cima dos seus seios. Via-se parte das suas costas e dos seus braços. Ela o viu e chamou a sua atenção levantando os seus braços e acenando. Por um momento ele ficou com cara de bobo e depois ficou admirado com o que viu. Ele fez tudo automaticamente. Desceu do cavalo, começou a tirar a camisa. Viu-se pulando com um pé só e tirando a bota do outro pé. Ficou só de calça. Olhou para onde estava a moça e pulou na água. Só que, antes de cair de cabeça na água ele viu que ela havia feito o mesmo. Náo tinha mais ninguém em cima da pedra. Aí, ele sentiu um arrepio. Do jeito que caiu na água, com aquele impulso mesmo, fez meia volta antes de ficar com a cabeça de fora. O arrepio veio de novo e deu nova força para ele nadar mais rápido. Ele se percebeu apavorado e quase sem respirar ele chegou na beirada e viu uma árvore que tinha as raizes para dentro da água. Agarrou-se ali e tentou sair, porém sentiu um puxão na perna. Alguma coisa puxou ele para baixo. Foi para o fundo da água de novo. Aí, engoliu água. Ele ficou apavorado e tentou forçando para sair. Aquilo que puxava a sua perna, cortava a sua carne das canelas. Então, ele olhou para baixo e viu o seu sangue misturar-se com a água. Então, ele se lembrou da faca que tinha na cintura. Todo mundo naquele tempo usava uma faca. Pegou essa faca da cintura com uma mão e com a outra fez força para cima e quando quase tinha tirado toda a perna para fora da água, ele lascou uma facada na altura onde ele achava que estava aquilo que segurava a sua perna. A água ficou mais vermelha e viu-se livre. Saiu da água e nem lembrou de pegar nada. Do jeito que estava ele queria era sair dali o mais rápido possível. Pulou no cavalo, fez meia volta sem olhar para o rio. Não quis nem saber o que era aquilo que tinha feito aqueles cortes na sua perna que sangrava e chegava a pingar no chão. Camisa nova? Outro dia. Baile? Não, não. E depois voltar e ter que atravessar o rio de noite? Nem pensar. Foi o que pensou. Agora era pensar em como ia chegar em casa e contar para a mãe o que havia acontecido. Ai, ai, ai! O jeito era dizer que havia caído do cavalo no meio de um espinheiro. É. Era o jeito. Nem queria dizer a ela que ela tinha razão quando falava sobre Sereias. Pensou muitas coisas. A dor fazia ele ficar pensando. E pensando que Sereia e Iara eram a mesma coisa. E também que a única diferença entre aquele ser do rio daqui do Brasil e os da Europa, como contavam, era a cor dos cabelos. O resto, a mesma coisa! Passado algum tempo, vemos a mãe desconfiada. Era um dia bem quente. Ela ficou pensando que seria ótimo num dia como aquele tomar um banho de rio. Ela até falou com o seu filho, mas ele deu uma desculpa e foi capinar a roça com aquele solzão. Lá teve tempo para pensar. Vai que ele chega no rio e dá de cara com ela de novo. Só de pensar já tinha um arrepio. Pescar no rio? Não, não pesca mais no rio, não. Talvez ela esteja ali e..., melhor não. Comer peixe? Só se for bem frito. Vai que seja o filho dela!!! Melhor não. E continuou a capinar.
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