terça-feira, 6 de setembro de 2011

A bruxa de sombrinha de bolinhas



O seu Manoel conseguiu um emprego em Apucarana, lá no estado do Paraná. Foi primeiro só ele e depois de conseguir um lugar para levar a família, levou.
Era uma casa dividida ao meio. Eles chamam de parede e meia. Tinha dois quartos, uma cozinha grande que servia de sala também e um banheiro que ficava na varanda, num plano mais baixo.
Pois bem. O seu Manoel conseguiu um emprego de guarda de segurança numa grande empresa. Fez curso e tudo. Fez defesa pessoal, curso de tiro e outras coisas que precisa ter na profissão. Ele estava feliz. Mas vai que um dia, na outra metade da casa entra um casal. Este casal tinha um bebê. Este bebê chorava direto. Mas, direto mesmo! Uma coisa assim que era de enjoar. E chora e chora. Passava os dias e nada do bebê parar. E olha só. O seu Manoel trabalhava em turno que é trabalhar, às vezes de dia e às vezes a noite. Quando era trabalhar a noite é que ficava difícil. O homem queria dormir e não conseguia. Então, teve um dia que ele pediu, meio que mandando, porque ele já estava passado de sono e quem perde o sono fica sem paciência, fica nervoso, pediu assim para a dona Nicota - era assim que se chamava a mulher dele. “Nicota, minha mulher! Você tem que ir ali do outro lado falar com a mãe desse bebê que não para de chorar. Eu quero dormir e não consigo, mulher e eu tenho que trabalhar a noite. Assim não dá! Eu tenho que dormir!” E lá foi a dona Nicota. Meio sem graça, chegou dizendo boa tarde, como é que está e coisa e tal. Aí, perguntou da criança. A dona da casa, a tal vizinha disse que ele estava bem. Foi aí que a dona Nicota falou que escutava ele chorar e foi por isso que ela foi até ali. Assim, começaram a conversar. A dona Nicota contou que o marido trabalhava de noite, as vezes, e que quando queria dormir não conseguia por causa do chororô da criança. Perguntou se ela já tinha levado no Posto de Saúde e a mulher disse que já tinha feito de tudo e o bebê continuava a chorar e a emagrecer. O choro dele também estava ficando mais fraquinho. Ali, a dona Nicota que já era bem vivida e sabia das coisas, se preocupou e sugeriu que a mulher, quando fosse de noite, que ela ficasse acordada e prestasse atenção no que acontecia. Porém a mulher vizinha disse que não conseguia ficar acordada. Não sabia o que acontecia e começava a ficar mole, o olho pesava e acabava dormindo. Só acordava de manhã e lembrava que a noite havia passado. O marido que também trabalhava fora e só vinha no fim de semana, nem ajudava. Se ele estivesse ali, pelo menos... Quando a vizinha falou que não conseguia dormir a noite, a dona Nicota teve um estalo. Alguma coisa estava errada. A coisa de não saber o que acontecia durante a noite é que martelava a cabeça dela. Então entraram num acordo. A dona Nicota iria dormir de noite na casa dela. Ela iria ajudar.
A noite chegou. A dona Nicota deixou os filhos – ela e o seu Manoel tinham dois filhos já grandinhos – depois de comer e de botá-los para dormir, foi para a casa do lado e foram para a cama. Combinaram que ficariam acordadas, claro. Era essa a intenção de dona Nicota ter ido até ali. Nenhuma das duas poderia dormir. Seria difícil? Elas não sabiam. Mas ficou acertado que uma chamaria a outra se a outra dormisse. Elas estavam assustadas. Não sabiam o que iria acontecer. As primeiras horas foi fácil. Falavam baixinho e até riam da situação. Elas estavam nervosas e o nervosismo deixa a gente rir à toa. O bebê depois de comer havia dormido. Então estava até engraçado. O tique-taque do relógio dava para ouvir facinho, facinho. Até parecia ser mais alto e dava mais medo. Qualquer coisa aquela hora deixava elas com medo, mais assustadas. Em alguns momentos elas se olhavam e ficavam arrepiadas e mostravam os braços uma para a outra com os pelos eriçados, os pelos levantados. O pio da coruja, do cricrilar do grilo, um gato gritando o seu miado de namoro lá longe, era para arrepiar.
Foi num momento que os sons iam ficando mais longe. O cansaço foi batendo e aí, parecia que tudo tinha ficado em silêncio. Devia ser por volta da meia-noite. Sabe, todas estas coisas acontecem por volta da meia-noite. Para mim já passava da meia-noite. Enfim, a cabeça de cada uma delas tinha, parecia, ficado mais leve, relaxada. Os olhos tinham ficado pesados. O corpo experimentava aquela cama gostosa e ia dando um sono difícil de resistir... Mas elas não podiam. Tinham que ficar acordadas. A dona Nicota bateu de leve chamando a vizinha para ficar acordada. Ela já estava quase ressonando e deu um estremecimento. Alguma coisa estava acontecendo. Não estava normal. Dava pra sentir. Veio uns arrepios quando perceberam uma luz vindo do lado da porta. Se encolheram embaixo das cobertas. Haviam combinado que só ficariam acordadas para ver o que acontecia. Não iam fazer mais nada do que isso. Sei lá o que poderia acontecer... A luz que vinha era esverdeada. Com aquela luz verde conseguiam até enxergar o olho uma da outra por debaixo das cobertas. Elas até se falavam pelos olhos. Pelo olho dava para ver o pavor que sentiam. Foi então que lembraram porque estavam ali acordadas. Era para ver o que acontecia com a criança. O que é que deixava a criança chorando e emagrecendo daquele jeito. O bebê estava ali do lado. Sozinho ali. Tomaram coragem, falavam pelos olhos, e procuraram ver o que acontecia. Mas tinha que ser com bastante cuidado para não chamar a atenção. Para não serem notadas. Então, aí, viram uma coisa que nunca tinham visto. Era uma mulher. Não se via o rosto, mas era uma mulher. Ela voava, ela flutuava acima do chão do quarto. Vinha devagarinho voando. Tinha uma roupa dessas bem antigas e uma sombrinha de bolinhas. Tinha, também, uma espécie de capa que ficava pendida por cima dos ombros e foi com essa capa que, quando chegou perto do berço, ali do lado, que ajeitou por cima deste berço tapando ele e ouviram ela aspirando o ar. Cada vez que ela aspirava assim, chupando o ar, saia uma nuvenzinha de um branco bem leve e entrava pela boca dela. Ela aspirava bem devagar. Aspirava devagar. E ficou ali por um bom tempo e as duas mulheres vendo e não podiam fazer nada. Parece que tinham virado estátuas. Estavam duras. Elas não podiam se mexer. Num momento, do mesmo jeito que entrou a mulher saiu. Só não sabem se foi de costas ou de frente. Elas não sabiam dizer. Quando perceberam de novo já era de manhã. A cabeça estava leve e o bebê chorava ali do lado. Aí as duas começaram a se lembrar do que tinha acontecido naquela noite e começaram a contar as coisas que se lembravam. Contavam uma para a outra e se arrepiavam de novo, assim como se arrepiaram naquela hora que aconteceu. Os pelos ficavam de pé de novo. Coisa incrível. A dona Nicota teve uma ideia. Perguntou se a criança era batizada e a moça envergonhada disse que não tinha sido. Eles não eram casados de papel passado. Lá no cartório, sabe. Vocês sabem que o batismo é importante nestes casos e resolveram que iam batizar naquele dia mesmo. Só esperaram o seu Manoel chegar do trabalho e batizaram ali na casa mesmo. Aí, foi que nem tirar com a mão. A bruxa nunca mais apareceu. O menino começou a tomar corpo, engordar. Coisa que não fazia a tempos e cresceu. O seu Manoel depois de uns tempos teve que mudar, porque a empresa dele mandou ele para outra cidade e perderam contato com aquela família. Mas, eu acredito que ele, a criança e a família devem estar bem. A família do seu Manoel e da dona Nicota também estão bem. Os filhos cresceram e se casaram. Tiveram filhos também. Para não ter que enfrentar a bruxa eles tinham o costume de primeiro batizar em casa. Vá lá que ela aparece. Melhor é não facilitar.

Um comentário:

  1. Um pouco assustador este conto. Um texto bem gostoso de ler, fiquei bem curiosa para chegar logo ao desfecho.

    ResponderExcluir