sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UM CASO ESTRANHO


Quando uma conversa está boa a gente perde a hora. Uma conversa puxa a outra e assim vai. Os ponteiros dos relógios não perdoam e vão correndo. Não param.
Uma amiga da minha mãe, a dona Lourdes, contou esse caso uma vez. Eu era um garoto de uns doze ou treze anos. A minha família estava junto com a família dela. Ela contava de um jeito todo especial. Ela era de origem italiana e gesticulava muito e era casada com um senhor bem mais velho do que ela. Ele era de origem alemã, um homem quieto, a mulher falava por ele e por ela, era claro e bem grisalho. Contou-nos que um dia, eles ainda moravam no sudoeste do Paraná, quando tinham ido na casa de um parente deles, voltaram tarde. O lugar era longe e isso não importava. Voltavam de carroça e sempre do mesmo jeito. O casal sentado na frente e os filhos atrás, dormindo entre as cobertas que sempre levavam, de propósito, nestas visitas. Quando digo sempre é sempre. Eles sempre faziam visitas. Como tinham onze filhos tinham, também, muitos compadres. Tanto batizavam os filhos dos outros como tinham os seus compadres que batizavam os seus filhos. Era uma troca, não é? Então, contava ela, que estavam quase dormindo ali na frente. Os cavalos, dois, passo miúdo, moroso, mas sempre chegando mais perto de casa. Não tinham pressa. Este negócio de pressa é uma coisa muito nova, muito recente. É desta nossa época. Bom, continuando. O céu em cima deles, estrelado, porém sem lua. Era lua nova. Não tinha lua nenhuma no céu. Ou melhor, estava ali, escura, assim dizem os professores. A lua fica escura, fica na sombra e daí a gente não vê ela. Bom, a estrada de terra se via no meio daquele breu. A lanterna que era de querosene ficava com as chamas tremelicando e pouco iluminando. Pelo menos dava para ver as pernas deles e os matos que ficavam na beirada da estrada. Pois, contra o céu dava para ver as árvores. Os bichinhos da noite faziam o seu barulho como a coruja com seu grito agudo e arrepiante, mortiço, o cricrilar dos grilos e lá numa lagoa, ouvia-se os sapos. Da carroça não dava para ver, apenas ouvia-se. O pássaro-fantasma, o urutau, levantou voo bem na frente deles. Parecia um mau presságio. Dizem que ele só sai quando a lua nasce e hoje não tem lua. “Uai, que lua é que vai nascer? Ou será que vai acontecer alguma coisa?” Um arrepio percorreu a espinha deles. Nem precisaram falar isso. Um olhou para o outro e se entenderam. Mais na frente, subindo a colina, virando a direita, chegariam numa Igreja que ficava no alto da estrada, do lado direito. Um, parecia um preá, atravessou pela frente deles. Um dos cavalos relinchou. O caminho que era iluminado pelas estrelas e pela lanterna começou a virar morro acima, para a direita. Dentro em pouco estariam na dita Igreja e avistaram ela. Mas, espera um pouco. Ela estava toda iluminada. Ué! Nem sabiam que teria missa de noite! Foram chegando, foram chegando devagar e ali, mais em cima ficava a Igreja. Para se chegar nela tinha que subir por uma rua em curva de uns cinquenta metros. Coisa pouca. A dona Lourdes ficou curiosa e pediu para seu marido parar a carroça. Atrás todos estavam dormindo naquela hora e nem deram sinal de se acordarem. O seu Wilmuth, parece o nome de outra história, mas é só coincidência, puxou as rédeas e parou os cavalos. Girou os freios e viu a dona Lourdes andar morro acima e só distinguia a sua roupa clara. Ela já estava chegando próximo e conseguia ouvir os cantos e as falas em latim. A missa estava sendo rezada em latim! Pensou. Coisa antiga. Desde 1960 e pouco não se rezava mais a missa em latim. E ela, ali, olhando para o interior da Igreja pela janela lateral. Diz ela que ficou de queixo caído. No altar o padre, como faziam antigamente, estava de costas para a comunidade e cantava a missa. A cada fala do padre a comunidade respondia em coro e cantado. O padre estava paramentado com aquelas vestes bonitas, coloridas e bordadas com esmero. O povo que assistia também usavam trajes antigos. Foi neste momento que ela percebeu que estava vendo uma missa diferente. Todos que ali estavam, estavam mortos! Eram fantasmas! Já tinham ido visitar o São Pedro e sei lá porquê ouviam uma missa. Aí ela pensou e por um momento sentiu um arrepio, coisa rara, e voltou para a carroça bem rápido e com medo que um daqueles ali viesse por trás e lhe segurasse pelas costas. Foi um já e estava sentada ao lado do Wilmuth. “Anda!” disse ela. O marido não queria dizer nada, mas quando ela desceu pela rua e pela aparência dela, branca, dava para ver de longe só com a luz das estrelas que algo estava fora do normal. Então, para adiantar, já tinha soltado o freio. Demorou um pouco e lá em cima do morrinho, do lado esquerdo da estrada viram uma coisa de se arrepiar da ponta dos pés aos fios escondidos dos cabelos. Eles nunca tinham visto, mas já tinham ouvido. Coisa de folclore e acontecia naquela noite. Uma mula-sem-cabeça! Era branca e no lugar da cabeça, com formato desta cabeça, fogo! Sabe, o fogo tinha o formato de cabeça. Deu uma empinada e disparou um trote morro abaixo. O seu Vilmuth apressou os cavalos que responderam rapidamente e dispararam, acho que eles tinham visto a coisa também e apressaram. Olhando meio de lado deu para ver que aquilo descia e vinha para o lado deles. Estava cada vez mais perto. A dona Lourdes fez uma coisa que estava longe de compreender que era ela mesma. Ela rezou alto! Coisa rara, pensou o seu marido. Era difícil ver a dona Lourdes fazer isso. É. Foi um ganho ter acontecido aquilo, né? Fazer a esposa rezar. Mas, voltando ao caso, a mula desembestou lá da colina e vinha para o lado deles. Então aconteceu que ela, a mula, passou por trás da carroça e subiu para o morro onde ficava a Igreja. Eles pararam e ficaram observando o que ia acontecer. Claro, se não vissem como nós iríamos saber como aquilo teria terminado? Uma história tem que ter alguém que veja para poder contar para todo mundo. E foi assim. A mula-sem-cabeça, e o seu fogo iluminava tudo por onde passava, deu a volta na Igreja e parou em frente a porta principal. Esperou um pouco e apareceu o Padre com algumas pessoas ao lado, logo atrás. Aí aconteceu uma coisa incrível! A mula começou a virar gente! Virou uma mulher! E além de ter virado uma mulher, estava vestida de noiva! Bem que diziam que a mula era uma mulher que tinha gostado de um Padre. A dona Lourdes disse que tinha pensado nisso e aí é que aconteceu o mais incrível disso tudo. O Padre estendeu a mão e os dois de mãos dadas entraram no Templo com aquelas outras pessoas atrás. Então, começou a ribombar o sino da Igreja. Será que era o casamento deles? Será que haviam sido perdoados? Disso não sei. A dona Lourdes não contou porque, nem ela e nem o seu Vilmuth quis voltar lá para ver o que tinha acontecido. Até que a história vale só até aqui. Cada um pode dar um final que quiser. Porém, pelo visto teve um final feliz com aquele sino todo que eles dizem que ouviram. Bem, continuando, a dona Lourdes contou que por um bom tempo ela ficou sem falar só para organizar as ideias, colocar as ideias em ordem e saber como contar para o Vilmuth o que tinha visto dentro daquela Igreja e o que tinha acontecido. Então, só de pensar ela já se arrepiava toda e olha que ela era uma mulher que não tinha medo de nada. O seu Vilmuth, do lado dele, nem perguntou nada e para quê, não é? Lidar com alguma coisa que não se entende não é fácil. Ainda mais com gente morta era diferente. E mais ainda com uma mula-sem-cabeça...! É ou não é?

3 comentários:

  1. Só passando para conhecer o blog! Vou ler depois, de casa! Aproveite e passeie no meu! Estou desconectada de tudo há mais de um mês pois estava de mudança... Mas há várias histórias no meu blog tb, Dani! Coisa boa demais escrever!!!!

    http://clicandoeconversando.blogspot.com/

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  2. Olá Daniel!
    Parabéns pela sua dedicação ao mundo da literatura!!!

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  3. Oi, Daniel!

    É instigante a maneira como você escreve.

    Parabéns

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