Não sei se você sabe o que é um enterrado. Sabendo ou não sabendo, vou explicar. Há muito tempo atrás, as pessoas não tinham essa facilidade de chegar em um banco e depositar seu dinheiro ou alguma coisa de valor. Então, eles recorriam a outros meios para guardar as suas coisas valiosas. O que mais faziam era enterrando. Daí a palavra enterrado. Bem, depois da explicação, vamos a história que aconteceu, de verdade, com o meu tio Zeca.
O tio Zeca era irmão de minha mãe. Irmão caçula do primeiro casamento de meu vô. A vó tinha morrido e o vô – que nós chamávamos de Dindinho – havia ficado viúvo por muitos anos e só mais tarde casou novamente. Mas, essa é outra história.
Já adulto, o tio trabalhou na Estrada de Ferro ali em Ibirama. Casou e comprou uma casa. Esta casa em estilo alemão, não enxaimel, mas com alguns traços deste estilo. Não entendo muito de estilos e não vem ao caso. O que é importante é saber que foi construída no início do século passado, quando a BR 470 começou a ser construída, e é interessante lembrar que foi o meu pai que desenhou aquela ponte em curva na entrada da cidade e também foi ali o último trabalho como funcionário público fazendo o trevo que passa por debaixo da mesma ponte. Mas, continuando, a casa ficava bem onde hoje é a cabeceira sul da ponte da cidade nesta BR 470. Como ficava muito próxima da rodovia, o tio Zeca fez uma outra mais para cima e resolveu desmontar, desmanchar aquela antiga. Entretanto, é importante que se diga que ali acontecia umas coisas esquisitas. Os meus primos não gostavam de ficar sozinhos na casa, porque de noite ouvia-se – todos ouviam – passos pela casa, passo pela escada que ia para o sótão e uma voz que sempre chamava o tio Zeca, assim: “José! José!” a noite. Meus primos sempre contavam. Como sou mais novo, naquelas rodas de conversa, sempre lembravam o acontecido e todo mundo se arrepiava. Quando nós íamos dormir na casa deles, dormíamos embaixo, num quartinho, da escada. Todo mundo junto. Por falar em escada, no pé dela, dessa escada, havia um alçapão que o tio Zeca fechou por medo que as crianças entrassem por ali. Tornando a falar de quando nós dormíamos lá, só o meu irmão Paulo e o primo Adalto é que não dormiam embaixo da escada, naquele quartinho. Eles dormiam no sótão para provar que não tinham medo das "assombrações". E justamente estes dois é que, naquela conversa de adolescentes, tiveram a ideia de procurar aquele enterrado. O meu irmão foi e ajudou a desmanchar a casa. Procuravam nas paredes – é que em alguns causos ouviam-se falar de “enterrados” nas paredes como em alguns encontrados em umas casas lá na Lapa, no Paraná. Pois, bem. Foram desmanchando, desmanchando e chegaram e foi deixado só no assoalho. Os tijolos, grandes, ficaram empilhados mais acima, as tábuas, grossas, colocadas uma ao lado da outra num girau feito para isso e os caibros, grossos, empilhados ao lado. Quando começaram a desmanchar, descobriram que não haviam pregos. Para que as paredes ficassem em pé eram usados tarugos de madeira no lugar dos pregos e encaixes. Interessante, não é? Aí, faltava só desmanchar o assoalho e as paredes que ainda estavam em volta do assoalho. Para se entrar no porão, que tinha mais ou menos um metro nos fundos da casa e um metro e meio na frente, tinha uma portinha. Ali embaixo era jogado de tudo. Desde garrafas, panelas velhas, cacos de vidros, tudo. Era um guarda-porcarias. Naquele dia, estava quase na hora do almoço e aparece um vizinho que morava no outro lado da BR, no lado de baixo. A casa dele ficava próxima do rio Itajaí-Açú. O meu tio, um homem simpático, recebeu ele com um grande bom dia. O homem se desculpou por não ajudar a desmanchar a casa, etc. Chegou ali, conversou um pouco, andou para lá e para cá. Então, o meu tio falou que todos ali estavam com fome e até convidou o homem para o almoço. Ele se desculpou, dizendo que o almoço dele estava a mesa e saiu. Meus primos e o meu tio saíram para cima, para a casa e o homem para baixo. Almoço ali era uma festa. Todos conversavam, pois não tinha televisão para atrapalhar a conversa. Aí, cada um falava. Uns riam e outros escutavam e as horas passavam. Quando o meu irmão e o meu primo desceram para a casa antiga para continuarem o serviço, começaram a retirar as tábuas que formavam o assoalho. Quando chegaram na parte onde ficava a escada viram que ali havia umas tábuas do mesmo tamanho e quando soltas, e era assim mesmo, era o dito alçapão por onde se ia ao porão. Despregaram e levantaram o alçapão. A surpresa! Lá embaixo havia uma pá. Uma pá? O que estaria fazendo uma pá ali? E era até nova! Ora, a pá é do tio. É da casa. Foi tudo muito rápido. Junto com a pá viram que havia um buraco no formato de uma caçarola. No formato de uma panelinha de ferro. Dava mais ou menos um palmo de diâmetro. Uma panelinha pequena e estava escondida ali. Ali estava a razão – para quem acredita – dos barulhos da casa. Era um enterrado bem debaixo da escada. Meu irmão e meu primo foram correndo chamar o tio Zeca e os outros e quando chegaram para ver, foi aquele rebuliço. Então, havia mesmo um enterrado! E olha que estava fácil de encontrar. Ninguém nunca desceu pelo alçapão. O tio até ficou entristecido por nunca ter deixado ninguém descer por ali. Até tinha pregado por precaução. Também, ele tinha, naquela época, seis crianças.
Pois é. Ainda hoje o meu tio, quando se fala sobre o acontecido, sente uma tristeza e uma pontada no coração de não saber o que havia dentro daquela panelinha. Agora, quem foi que pegou aquele enterrado? Há desconfiança. Qualquer um que tenha lido até aqui, e é o relato de quem esteve lá, vai pensar que foi aquele que esteve visitando a casa no dia do desmanche. É o óbvio, não? Aí é que está. Depois de duas semanas, começou a chegar na casinha deles, do dono da casinha outro lado da estrada – hoje asfalto – geladeira, rádio, bicicleta... que coisa, não? E isso não é tudo. Existe uma crença sobre os enterrados que, os enterrados são direcionados. Eles são para uma pessoa. Só ela pode pegar e quem não obedecer tem uma praga. Sofre. E não foi diferente para aquela família ali na frente. Dentro dos dois anos seguintes a família se desfez. Aconteceu as maiores desgraças com eles. Houve separação, doenças... Que coisa triste! Mas pensando bem, quem pegou, se foi aquela mesma pessoa, teve o seu preço. Ora, ele entrou na casa de outro, abusou da amizade e enganou. Desrespeitou o dono da casa. Se havia alguma coisa embaixo da casa e ele pegou, foi um furto mesmo que o dono da casa não tivesse conhecimento. Não é certo? Não tenho razão? Então, agora, até hoje o meu tio fica a pensar no que havia naquele enterrado. Seria ouro? Moedas? Joias? Não sei. Ele não sabe e ninguém saberá. Aquele que furtou deve estar enterrado e enterrado consigo o que havia lá.
Não conhecia este conto e o achei muito interessante.
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